Materialismo Histórico e Psicanálise

3.1 Materialismo Histórico e Psicanálise: A Análise de discurso (AD) é uma disciplina de interpretação que funciona, como diz Orlandi (1999), nos entre-meios das três áreas que a sustentam: a Linguística, o Materialismo Histórico e a Psicanálise. Bebendo dessa fonte, por certo a AD não comungaria dos mesmos conceitos de sujeito e de sentido que outras áreas da Linguística, em cujo campo institucional se situa. Tais noções dependem de como os estudos na AD resolvem o que a nosso ver é um importante nó teórico: a articulação entre materialismo histórico e psicanálise, mais especificamente, a ligação entre as noções de “ideologia” e “inconsciente”.

Entretanto, o que é uma dificuldade também é uma possibilidade enriquecedora, demandando um esforço grande de reflexão, uma vez que se trata de conceitos provenientes de duas áreas de conhecimento diferentes quanto à natureza, à preocupação, ao objeto de trabalho e ao modus operandi no trato analítico dos corpora. A primeira centraliza seu estudo na interligação entre sociedade, economia e história, procurando explicar os modos de produção, criados historicamente pelo homem, a partir dos quais se fundam as classes sociais.  A segunda focaliza a experiência individual (intransferível), todavia no âmbito de práticas socializadas, questionando a subjetividade reflexiva através do desenvolvimento dialético do destino pulsional.

Isso implica considerar processos de subjetivação envolvidos na construção de sentido na perspectiva do materialismo histórico e da psicanálise lacaniana, em que o sujeito é tomado não como uma “identidade cartesiana unificada”, mas como uma “dimensão eterna de resistência-excesso em relação a todas as formas de subjetivação (ou do que Althusser chamaria de interpelação).” (ZIZEK; DALY, 2006, p. 11). Nesse ponto, o sujeito consciente da psicologia não faria qualquer sentido, razão pela qual surge, na AD, sob a égide dos esquecimentos números 1 (o de que ele não é fonte do dizer) e 2 (o de que ele não sabe o que diz). O próprio sentido também não pode estar restricto ao sistema semiolinguístico nem pode se dar no nível dos interlocutores, como preconizava Jakobson em seu quadro comunicacional. Por essa razão, Pêcheux preferiu conceituar o discurso como efeito de sentido entre os lugares ocupados por A e B. Se A e B faziam referência aos interlocutores jakobsonianos, não eram eles, mas sim o lugar (social) que ocupavam a pedra de toque para o entendimento dos sentidos na releitura pêcheuxtiana.

Nesse ponto, a proposta que ora apresentamos pressupõe a necessidade de apreender em que aspectos os legados da psicanálise e do materialismo histórico podem contribuir com a teoria do discurso, organizada por Michel Pêcheux, com vistas ao entendimento da constituição dos processos discursivos; legados esses que, no entanto, não são vistos aqui separadamente, mas através de articulações possíveis que têm, como ponto de encontro, a tentativa de compreensão da subjetividade que se materializa, por exemplo, na palavra ou na imagem, entrelaçando determinações da História (ideologia) e do Inconsciente (pulsão).

Aqui, reverbera a afirmação de Pêcheux de que “a ordem do inconsciente não coincide com a da ideologia, o recalque não se identifica nem com o assujeitamento nem com a repressão”, mas sob a ressalva do autor de que “isso não significa que a ideologia deva ser pensada sem referência ao registro inconsciente” (1988 [1975], p. 301). O que se pretende, portanto, é (re)pensar a ideologia com referência ao inconsciente a partir da abordagem de Žižek (2006), que, relacionando a ideologia à categoria do impossível, a considera a “fantasia suprema”. Para ele, a ideologia não é ocultamento nem distorção da realidade – como Marx declarara –, mas a impossibilidade de essa realidade não poder ser reproduzida sem a mistificação ideológica. Atuando de forma paradoxal, a ideologia, nessa perspectiva, constrói uma imagem de realização e simultaneamente provoca certo distanciamento dessa imagem para evitar os efeitos traumáticos do Real.

Tal funcionamento explica-se, pela via psicanalítica, em virtude de que a fantasia ideológica não pode se aproximar demasiadamente da Coisa (da realização total) sob pena de vê-la desaparecer e/ou de tornar insuportáveis, para os sujeitos, a angústia e a desintegração psíquica.  Nesse movimento entre construção e distanciamento, em que opera a encenação fantasística da ideologia, é que se situa a abordagem de estudo e análise de diferentes materialidades aqui proposta. Considera-se, pois, que a inscrição no campo do discurso, seja verbal ou imagético, realiza-se nesse movimento em que o ideológico e o inconsciente trabalham o “processo significante na interpelação-identificação”, constituindo as subjetividades e os processos discursivos.

O alicerce teórico que a teoria da AD nos oferece sinaliza a profunda solidariedade entre o materialismo histórico e a psicanálise em função da ação e do conhecimento que lhes são próprios, mas simultaneamente próximos, relativos à tripla constituição de um sujeito submetido à ordem do inconsciente, à ordem da ideologia e, se retomarmos Milner, à ordem da língua. Se nos primeiros ensaios da AD, uma área requeria da outra o elemento faltoso ou claudicante (e.g. a psicanálise interrogava o Materialismo pela noção de Inconsciente vilipendiada na análise histórica), tais confrontos nos entre-meios por certo não cessaram. São antes as reacomodações que permitem à teoria expandir e abarcar, para além do seu objeto teórico que é o discurso, outros objetos analíticos.

Acesse o referencial teórico navegando pelos links a seguir:

Clique nos links a seguir e navegue pelo nosso projeto integrador: