Justificativa

2 Justificativa: Malgrado constitua alvo constante das políticas educacionais e tema sobre o qual se desenvolve recorrente discussão (mesmo fora do circuito académico), a leitura não resta incólume a mitos que comumente se estendem ao que de fato é uma língua ou sua gramática. No nosso caso mais específico, a leitura é amiúde entendida tanto como mera atividade de decodificação do signo linguístico quanto como, por consequência, uma atividade consensual – relegando-se diferentes leituras ou a um suposto mau exercício decodificador ou a um efeito ideológico (restringindo-se o sentido de ideologia à “câmara invertida” marxiana). O pressuposto aí subjacente é claramente (neo)positivista e implica um lugar neutro, anterior e fiel à verdade das coisas.

A orientação teórica desta proposta, todavia, visa a defender que tal miríade é já de per si um efeito ideológico (um efeito ideológico elementar, como pensamos poderia ter dito Althusser), visto que os sentidos, embora mobilizem garantidores de sua veracidade (produzindo e coligindo suas evidências a partir de operações como disposição, categorização e nomeação do mundo factual), não o fazem senão sob dadas condições de produção, isto é, sob uma tessitura sócio-histórica. Dessarte, os sentidos, malgrado se proponham uns em detrimento de outros como verdadeiros ou lógicos, correspondem a posições (também históricas) em um jogo dessimétrico de forças sociais. A produção de uma leitura é, nesse contexto, um investimento de significação que – denegando, ou explicitamente se contrapondo a, outras leituras – funciona justamente por obliterar a condição constitutiva dos sentidos: o de que sua objetividade material é contraditória, retomando a noção de valor saussuriana: um sentido não significa de per si, mas pelo que se diferencia de outros sentidos. Como afirma Canguilhem (apud PÊCHEUX, 1999), o sentido é “relação à”.

Embora não possamos desconsiderar os efeitos de literalidade ou consensualidade de um sentido, é lídimo afirmarmos que, quanto mais ele se nos apresenta como verdadeiro, mais a pleno funciona o processo ideológico que o sustenta. Investir esforços de análise nesse processo não implica um relativismo simplista (ou mesmo simplório) que funcione à guisa de uma licenciosidade equalizante: se todos os sentidos são ideológicos, são todos igualmente válidos, possíveis ou críveis). O dispositivo teórico a que recorremos aponta justamente para a direção oposta: se não há sentidos verdadeiros ou restritos ao sistema, seu lastro está em processos sócio-históricos que autorizam uns (e não outros), que tendem a transformar uns em outros (mas não em qualquer outro), que dispõem uns para determinados sujeitos (e outros sentidos para outros sujeitos). São processos sócio-históricos que produzem os sentidos que intervirão materialmente no Imaginário, reproduzindo-o (garantindo sua manutenção), mas que, justamente por ser processo (por ser movimento), produz igualmente a possibilidade da ruptura, da transformação.

Ler, e a consequente produção de significação aí implicada, é tanto menos ideológica (no “mau” sentido marxiano da palavra) quanto mais clara e consciente for a filiação a partir da qual ela é produzida e faz sentido. Nesse ínterim, uma disciplina de interpretação como a Análise de Discurso pode ser libertadora justamente ao afirmar a incontornabilidade da ideologia. É ao nos reconhecermos como “porta-vozes” de determinados sujeitos históricos (ainda que afetados pela ilusão de que somos donos do “nosso” dizer e de que temos noção exata do que ele significa) que podemos ao mesmo tempo suspeitar do que dizemos e menos inconscientemente assumi-lo em nossas práticas de significação. Em uma palavra, este projeto propõe-se a esse exercício.

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