{"id":2882,"date":"2026-04-30T14:23:26","date_gmt":"2026-04-30T17:23:26","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/?p=2882"},"modified":"2026-04-30T14:24:50","modified_gmt":"2026-04-30T17:24:50","slug":"a-saida-dos-emirados-arabes-unidos-da-opep-os-recados-geopoliticos-de-abu-dhabi-por-mateus-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2026\/04\/30\/a-saida-dos-emirados-arabes-unidos-da-opep-os-recados-geopoliticos-de-abu-dhabi-por-mateus-santos\/","title":{"rendered":"A sa\u00edda dos Emirados \u00c1rabes Unidos da OPEP: os recados geopol\u00edticos de Abu-Dhabi por Mateus Santos"},"content":{"rendered":"<p>Durante a XVIII edi\u00e7\u00e3o da <em>World Policy Conference<\/em>, ocorrida na Fran\u00e7a, Anwar Gargash, Assessor Diplom\u00e1tico da Presid\u00eancia dos Emirados \u00c1rabes Unidos, discutiu o futuro do Oriente M\u00e9dio e de seu pa\u00eds em meio a guerra entre Israel, EUA e Ir\u00e3. Entre os principais elementos apontados, pode-se destacar uma compreens\u00e3o sobre a necessidade de reorganiza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de seguran\u00e7a regional, colocando em xeque as configura\u00e7\u00f5es de alian\u00e7as entre os Estados levantinos, o Egito e as pot\u00eancias do Golfo \u00c1rabe (AL-AMIR, 2026).<\/p>\n<p>Pouco menos de uma semana depois, anuncia-se a decis\u00e3o dos EAU em deixar a OPEP. Diante do hist\u00f3rico de diverg\u00eancias entre Abu Dhabi e o organismo sobre as cotas de exporta\u00e7\u00e3o, tal a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 surpreendente. Entre as primeiras interpreta\u00e7\u00f5es sobre o fato atual, a vers\u00e3o sobre uma poss\u00edvel vit\u00f3ria do governo Trump se tornou atraente, especialmente com a elevada inseguran\u00e7a energ\u00e9tica em n\u00edvel global e a necessidade de estabiliza\u00e7\u00e3o do mercado petrol\u00edfero. Do ponto de vista geopol\u00edtico, tal leitura se ampara nos acenos feitos por Gargash e outros interlocutores do pa\u00eds \u00e1rabe em refor\u00e7ar suas rela\u00e7\u00f5es securit\u00e1rias com EUA e Israel.<\/p>\n<p>Entretanto, o abandono do cartel petrol\u00edfero parece passar muito menos por isso. \u00c9 em Riad que se podem encontrar os principais vetores que explicam esse processo. A sa\u00edda dos EAU n\u00e3o apenas representa um rev\u00e9s geopol\u00edtico e geoecon\u00f4mico importante para a Ar\u00e1bia Saudita, como sinaliza para o Oriente M\u00e9dio e, em certa medida, para o restante do mundo uma tend\u00eancia ainda mais autonomista para o futuro do pa\u00eds de Mohammed bin Zayed Al-Nahyan.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a estrat\u00e9gica com o vizinho saudita desde os tempos da Primavera \u00c1rabe vem dando lugar a um cen\u00e1rio de maior tens\u00e3o entre duas das principais for\u00e7as centr\u00edpetas do xadrez geopol\u00edtico m\u00e9dio-oriental e dois dos principais expoentes do chamado novo mundo emergente. Do ponto de vista da seguran\u00e7a regional, clivagens envolvendo o apoio dos EAU ao Conselho de Transi\u00e7\u00e3o do Sul do I\u00eamen e as movimenta\u00e7\u00f5es de Abu Dhabi em favor das For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido no Sud\u00e3o chamaram aten\u00e7\u00e3o para dois aspectos (SANTOS, 2025).<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a assimetria de poder saudita frente ao Golfo \u00e1rabe se tornou um objeto de desconforto para o Estado emiradense, tendo em vista as suas expectativas de consolida\u00e7\u00e3o de uma proje\u00e7\u00e3o externa que ultrapassa a mera posi\u00e7\u00e3o de um s\u00f3cio menor da Casa Saud. Ainda que a Hist\u00f3ria registre diferentes fatores de dissenso entre os dois pa\u00edses desde os anos 1970, n\u00e3o se pode negar que o atual quadro representa um rev\u00e9s importante diante das tend\u00eancias de colabora\u00e7\u00e3o que, de forma crescente, pautaram a busca por sa\u00eddas em comum para as crises que se apresentaram desde ent\u00e3o. A decis\u00e3o de n\u00e3o fazer mais parte da OPEP constitui uma esp\u00e9cie de contragolpe em rela\u00e7\u00e3o aos sauditas, impactando diretamente em uma estrutura de proje\u00e7\u00e3o desse poder de Riad. Mesmo isso n\u00e3o necessariamente significando uma ruptura entre os dois Estados (Afinal, os EAU viram de perto os efeitos do cerco ao Catar anos atr\u00e1s), o cen\u00e1rio que se afirma \u00e9 de uma s\u00f3lida disposi\u00e7\u00e3o de Abu Dhabi em renegociar sua posi\u00e7\u00e3o na arquitetura geopol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio, com ou sem o apoio de Mohamed Bin Salman.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a transposi\u00e7\u00e3o desse cen\u00e1rio de incertezas entre Riad e Abu Dhabi tamb\u00e9m tem fundamentos e implica\u00e7\u00f5es geoecon\u00f4micas. Os avan\u00e7os no processo de redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia econ\u00f4mica da exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo permitiram aos EAU consolidar uma maior margem de manobra diante das flutua\u00e7\u00f5es no pre\u00e7o do combust\u00edvel, o que inclui uma ambiciosa pol\u00edtica de expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o em um contexto de prov\u00e1vel fonte para a redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o no futuro. Que os recursos minerais constituem um vetor para o aprofundamento da diversifica\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica do pa\u00eds, isso n\u00e3o \u00e9 uma novidade. O ponto central da estrat\u00e9gia emiradense \u00e9 poder explorar um cen\u00e1rio de um mercado petrol\u00edfero mais competitivo, substituindo a inger\u00eancia saudita pela capacidade de press\u00e3o indireta sobre as economias mais dependentes desse produto (MIDDLE EAST INSTITUTE, 2026).<\/p>\n<p>Do ponto de vista global, a perda do terceiro maior produtor do cartel, em um contexto de exist\u00eancia de outras importantes baixas, como Angola, torna-se indicador da consolida\u00e7\u00e3o da perda de influ\u00eancia da OPEP na defini\u00e7\u00e3o desse mercado. Dos tempos de um controle acima da metade da produ\u00e7\u00e3o global, ficaram apenas os esfor\u00e7os da Ar\u00e1bia Saudita em projetar um arranjo informal (OPEP +) e manter ativa a capacidade de dar as cartas na geopol\u00edtica do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>E Trump? O tempo da pol\u00edtica dificilmente lhe permitir\u00e1 sentir os efeitos mais concretos dessa prov\u00e1vel ruptura. Satisfeitos devem estar os chineses que, em meio \u00e0 crise global, elevaram suas importa\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo dos EAU (CHINA&#8230;,2026). Disso, pode-se depreender outra importante quest\u00e3o. Gargash est\u00e1 correto ao dizer que o Golfo n\u00e3o poder\u00e1 ser mais do mesmo ap\u00f3s a Guerra. No entanto, seu diagn\u00f3stico \u00e9 um sinal trocado diante da recente iniciativa envolvendo a OPEP. Se existe um futuro para o autonomismo emiradense, este n\u00e3o se encontra sob a prote\u00e7\u00e3o dos EUA. O desafio lan\u00e7ado por Abu Dhabi depende da capacidade de instrumentaliza\u00e7\u00e3o de uma declarada guerra econ\u00f4mica com seu vizinho (inclusive aumentando seu poder de barganha), cujo campo de batalha est\u00e1 longe do Atl\u00e2ntico e perto do Indo-Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>AL-AMIR. Khitam. Iran aggression on GCC countries was premeditated, not a reaction: Gargash. Gulf News, Apr. 27, 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/gulfnews.com\/uae\/government\/iranian-aggression-on-gcc-countries-was-premeditated-not-a-reaction-gargash-1.500520428\">https:\/\/gulfnews.com\/uae\/government\/iranian-aggression-on-gcc-countries-was-premeditated-not-a-reaction-gargash-1.500520428<\/a><\/p>\n<p>CHINA importa volume recorde de petr\u00f3leo dos Emirados \u00c1rabes Unidos, Brasil e Canad\u00e1 em dezembro. Uol, 20 jan. 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/reuters\/2026\/01\/20\/china-importa-volume-recorde-de-petroleo-dos-emirados-arabes-unidos-brasil-e-canada-em-dezembro.htm\">https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/reuters\/2026\/01\/20\/china-importa-volume-recorde-de-petroleo-dos-emirados-arabes-unidos-brasil-e-canada-em-dezembro.htm<\/a><\/p>\n<p>MIDDLE EAST INSTITUTE. The UAE\u2019s OPEC Exist. Middle Eat Institute, Apr. 29, 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/mei.edu\/events\/topic-virtual-briefing-series-the-uaes-opec-exit\/\">https:\/\/mei.edu\/events\/topic-virtual-briefing-series-the-uaes-opec-exit\/<\/a><\/p>\n<p>SANTOS, Mateus. [Des]caminhos da chamada \u201cguerra esquecida\u201d: o conflito no Sud\u00e3o e os interesses do Golfo \u00c1rabe. CENEGRI, 2 dez. 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/cenegri.org.br\/descaminhos-da-chamada-guerra-esquecida-o-conflito-no-sudao-e-os-interesses-do-golfo-arabe-por-mateus-santos\/#page-content\">https:\/\/cenegri.org.br\/descaminhos-da-chamada-guerra-esquecida-o-conflito-no-sudao-e-os-interesses-do-golfo-arabe-por-mateus-santos\/#page-content<\/a><\/p>\n<p><strong>Mateus Santos.\u00a0\u00a0<\/strong>Doutorando em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).Membro-Pesquisador do Laborat\u00f3rio de Geopol\u00edtica, Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Movimentos Antissist\u00eamicos (LabGRIMA)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a XVIII edi\u00e7\u00e3o da World Policy Conference, ocorrida na Fran\u00e7a, Anwar Gargash, Assessor Diplom\u00e1tico da Presid\u00eancia dos Emirados \u00c1rabes Unidos, discutiu o futuro do Oriente M\u00e9dio e de seu pa\u00eds em meio a guerra entre Israel, EUA e Ir\u00e3. 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