{"id":2797,"date":"2026-04-26T16:29:07","date_gmt":"2026-04-26T19:29:07","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/?p=2797"},"modified":"2026-04-26T16:29:07","modified_gmt":"2026-04-26T19:29:07","slug":"terras-raras-e-eleicoes-2026-disputa-sistemica-soberania-mineral-e-projetos-de-pais-por-glauco-winkel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2026\/04\/26\/terras-raras-e-eleicoes-2026-disputa-sistemica-soberania-mineral-e-projetos-de-pais-por-glauco-winkel\/","title":{"rendered":"Terras Raras e Elei\u00e7\u00f5es 2026: disputa sist\u00eamica, soberania mineral e projetos de pa\u00eds por Glauco Winkel"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A disputa global pelas terras raras consolidou-se como um dos eixos centrais do sistema-mundo contempor\u00e2neo, impulsionada pela competi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica entre China e Estados Unidos pelo dom\u00ednio das tecnologias de ponta. Esses minerais, essenciais para semicondutores, base da Intelig\u00eancia Artificial, turbinas e\u00f3licas de alta efici\u00eancia, motores el\u00e9tricos e baterias avan\u00e7adas, tornaram-se pilares da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e da reorganiza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do poder material. Nesse contexto, o Brasil surge como um ator estrat\u00e9gico, ainda que avance em ritmo inferior ao seu potencial geol\u00f3gico e industrial.<\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A Rep\u00fablica Popular da China mant\u00e9m um dom\u00ednio quase absoluto no setor, com as maiores reservas globais, estimadas em 44 milh\u00f5es de toneladas, e controle integral dos bens de capital necess\u00e1rios para o processamento desses minerais. Os Estados Unidos, por outro lado, enfrentam uma vulnerabilidade estrutural: possuem apenas 1,9 milh\u00e3o de toneladas em reservas. A assimetria tamb\u00e9m aparece na produ\u00e7\u00e3o anual: a China registrou 270 mil toneladas, enquanto os EUA produziram apenas 51 mil (U.S. Geological Survey, 2026, p. 153). A maior pot\u00eancia tecnol\u00f3gica do sistema, portanto, depende de uma cadeia produtiva altamente concentrada na \u00c1sia, depend\u00eancia que, em conjunto \u00e0s quest\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas internas dos EUA, pressiona sua posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O Brasil, por sua vez, aparece como detentor da segunda maior reserva mundial, com 21 milh\u00f5es de toneladas. Apesar da produ\u00e7\u00e3o ainda modesta, houve crescimento significativo de 560 toneladas (2024) para 2.000 toneladas (2025) (U.S. Geological Survey, 2026, p. 153). Trata-se de um movimento ascendente, por\u00e9m insuficiente para alterar a posi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do pa\u00eds nas cadeias globais de valor, ainda marcada por exporta\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e baixa capacidade industrial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Esse movimento global encontra resson\u00e2ncia direta na pol\u00edtica dom\u00e9stica brasileira. \u00c0 medida que as elei\u00e7\u00f5es de 2026 se aproximam, o debate sobre terras raras passa a ser organizado, sobretudo, pelas posi\u00e7\u00f5es de tr\u00eas figuras do cen\u00e1rio eleitoral: o atual presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT), candidato \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o; o senador Fl\u00e1vio Bolsonaro (PL); e o governador de Goi\u00e1s Ronaldo Caiado (PSD).\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o esses tr\u00eas atores que hoje vocalizam as narrativas mais vis\u00edveis sobre o tema, e, simultaneamente, representam os principais polos das expectativas eleitorais deste ano. Suas leituras sobre soberania mineral, alinhamento geopol\u00edtico e desenvolvimento econ\u00f4mico n\u00e3o apenas estruturam o debate p\u00fablico, mas funcionam como indicadores da disputa pol\u00edtica mais ampla que atravessa o pa\u00eds em 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Em entrevista ao Instituto Conhecimento Liberta, Lula criticou Fl\u00e1vio Bolsonaro e Ronaldo Caiado, classificando suas posi\u00e7\u00f5es como tentativas de \u201cvender o Brasil\u201d aos Estados Unidos. Defendeu \u201ccautela\u201d para evitar a entrega de \u201cativos estrat\u00e9gicos\u201d e \u201crecursos naturais\u201d, e afirmou que o contexto internacional exige maior aten\u00e7\u00e3o aos temas de seguran\u00e7a e defesa diante das press\u00f5es externas (Estad\u00e3o Conte\u00fado, 2026). Para Lula, as terras raras integram diretamente a agenda de soberania nacional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">No <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Conservative Political Action Conference<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (CPAC), principal evento anual do conservadorismo global, Fl\u00e1vio Bolsonaro apresentou uma narrativa distinta. Destacou os recursos naturais brasileiros, definindo o pa\u00eds como \u201ccampo de batalha\u201d para reduzir a depend\u00eancia norte-americana da China e sugeriu que os EUA observassem atentamente as elei\u00e7\u00f5es brasileiras, exercendo press\u00e3o diplom\u00e1tica para que as institui\u00e7\u00f5es \u201cfuncionassem adequadamente\u201d (Metr\u00f3poles, 2026). Seu discurso revela n\u00e3o apenas um alinhamento geopol\u00edtico orientado pelas expectativas estrat\u00e9gicas de Washington, mas tamb\u00e9m a abertura para formas de inger\u00eancia externa sobre o processo pol\u00edtico brasileiro, movimento que se articula a din\u00e2micas internas de &#8220;desdemocratiza\u00e7\u00e3o&#8221; e tensiona ainda mais o cen\u00e1rio eleitoral de 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A presen\u00e7a de Ronaldo Caiado no debate se relaciona ao fato de Goi\u00e1s abrigar a primeira mineradora de terras raras do pa\u00eds, Serra Verde, em Mina\u00e7u. Em 18 de mar\u00e7o, assinou um memorando de entendimento com o governo de Donald Trump para tratar da explora\u00e7\u00e3o de minerais cr\u00edticos no estado. A iniciativa foi criticada pelo governo federal, que apontou poss\u00edvel viola\u00e7\u00e3o do artigo 20 da Constitui\u00e7\u00e3o, respons\u00e1vel por assegurar que concess\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o s\u00e3o compet\u00eancia exclusiva da Uni\u00e3o. O governo goiano, contudo, alegou que o memorando n\u00e3o possui car\u00e1ter vinculativo e est\u00e1 dentro das prerrogativas estaduais (Lambranho, 2026).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A an\u00e1lise do Observat\u00f3rio da Minera\u00e7\u00e3o amplia a quest\u00e3o para al\u00e9m da disputa federativa. Para Gon\u00e7alves (2026), o caso revela a continuidade do modelo extrativo dependente, que mant\u00e9m Goi\u00e1s e os territ\u00f3rios do Cerrado como periferias minerais globais, aprofundando processos de desterritorializa\u00e7\u00e3o e impactos socioambientais sobre comunidades locais. Assim, a a\u00e7\u00e3o parece n\u00e3o se tratar apenas de um conflito jur\u00eddico, mas da reprodu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da vulnerabilidade territorial diante de interesses externos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Dado o exposto, percebe-se que a disputa pelas terras raras sintetiza o entrela\u00e7amento entre geopol\u00edtica, tecnologia e territ\u00f3rio no capitalismo contempor\u00e2neo. O desafio brasileiro n\u00e3o reside na posse dos recursos, mas na capacidade de romper padr\u00f5es hist\u00f3ricos de depend\u00eancia, reorganizar sua base produtiva e disputar posi\u00e7\u00f5es mais elevadas nas cadeias de valor. As elei\u00e7\u00f5es de 2026 revelam que o tema j\u00e1 ultrapassou o campo t\u00e9cnico, tornando-se parte central do debate sobre modelos de desenvolvimento, soberania e inser\u00e7\u00e3o internacional.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O futuro da inser\u00e7\u00e3o brasileira no sistema-mundo depender\u00e1 de sua habilidade em articular soberania mineral, prote\u00e7\u00e3o territorial e avan\u00e7o industrial, sem repetir o ciclo hist\u00f3rico em que abund\u00e2ncia natural convive com vulnerabilidade estrutural.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">As terras raras, nesse sentido, n\u00e3o s\u00e3o apenas minerais estrat\u00e9gicos: constituem um espelho do lugar que o Brasil ocupa e do lugar que pode vir a ocupar na hierarquia global do poder.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">ESTAD\u00c3O CONTE\u00daDO. <\/span><b>Lula critica Fl\u00e1vio e Caiado sobre posicionamento diante de terras do Brasil. <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o Paulo: InfoMoney, 8 abr. 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.infomoney.com.br\/mercados\/lula-critica-flavio-e-caiado-sobre-posicionamento-diante-de-terras-raras-do-brasil\/. Acesso em: 9 abr. 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">LAMBRANHO, Lucio. <\/span><b>Briga entre governo Lula e Caiado acirra disputa por controle de terras raras em Goi\u00e1s enquanto impactos ambientais s\u00e3o esquecidos. <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Belo Horizonte: Observat\u00f3rio da Minera\u00e7\u00e3o, 9 abr. 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/observatoriodamineracao.com.br\/briga-entre-governo-lula-e-caiado-acirra-disputa-por-controle-de-terras-raras-em-goias-enquanto-impactos-ambientais-sao-esquecidos\/. Acesso em: 9 abr. 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">METR\u00d3POLES. <\/span><b>\u00cdntegra: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">veja o discurso de Fl\u00e1vio Bolsonaro em confer\u00eancia do CPAC nos EUA. Bras\u00edlia: Metr\u00f3poles, 28 mar. 2026. https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CqtrIucb70w. Acesso em: 9 abr. 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">U.S. GEOLOGICAL SURVEY. <\/span><b>Mineral commodity summaries 2026. <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Reston: U.S. Geological Survey, 2026. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/pubs.usgs.gov\/periodicals\/mcs2026\/mcs2026.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/pubs.usgs.gov\/periodicals\/mcs2026\/mcs2026.pdf<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Acesso em: 25 mar. 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Glauco Winkel<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 pesquisador no Laborat\u00f3rio de Geopol\u00edtica, Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Movimentos Antissist\u00eamicos (LabGRIMA) e pesquisador associado no Centro de Estudos em Geopol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (CENEGRI).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A disputa global pelas terras raras consolidou-se como um dos eixos centrais do sistema-mundo contempor\u00e2neo, impulsionada pela competi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica entre China e Estados Unidos pelo dom\u00ednio das tecnologias de ponta. 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