{"id":2723,"date":"2026-04-09T14:03:02","date_gmt":"2026-04-09T17:03:02","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/?p=2723"},"modified":"2026-04-09T14:03:02","modified_gmt":"2026-04-09T17:03:02","slug":"cuba-e-a-ameaca-ianque-30-anos-depois-como-trump-e-a-crise-economica-mundial-estao-pressionando-a-ilha-por-charles-pennaforte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2026\/04\/09\/cuba-e-a-ameaca-ianque-30-anos-depois-como-trump-e-a-crise-economica-mundial-estao-pressionando-a-ilha-por-charles-pennaforte\/","title":{"rendered":"Cuba e a \u2018amea\u00e7a ianque\u2019, 30 anos depois: como Trump e a crise econ\u00f4mica mundial est\u00e3o pressionando a ilha por Charles Pennaforte"},"content":{"rendered":"<p>Como nos anos 90, dificuldades de abastecimento, problemas energ\u00e9ticos, queda do poder de compra, desencanto com o futuro e nova onda de emigra\u00e7\u00e3o voltam \u00e0 pauta de preocupa\u00e7\u00f5es. Mas a crise atual \u00e9 qualitativamente distinta. Cuba hoje \u00e9 um pa\u00eds muito mais maduro economicamente.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em novembro de 1994, desembarquei pela primeira vez em Havana. Em agosto daquele ano, ocorrera a chamada \u201c<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/1994_Cuban_rafter_crisis\">Crise dos Balseros<\/a>\u201d, quando dezenas de milhares de cubanos, pressionados pelas condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de vida, se lan\u00e7aram ao mar em dire\u00e7\u00e3o a Miami. \u00c9 importante lembrar que as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas \u2013 ou o\u00a0<em>bloqueo econ\u00f3mico<\/em>, como fazem quest\u00e3o de assinalar os cubanos \u2013 eram respons\u00e1veis pela\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Special_Period\">cr\u00edtica situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de ent\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Apag\u00f5es constantes, transporte prec\u00e1rio, filas por alimentos b\u00e1sicos por meio da \u201clibreta\u201d (cartilha de suprimentos) que garantia o racionamento m\u00ednimo de consumo necess\u00e1rio para toda a popula\u00e7\u00e3o e uma inventividade cotidiana impressionante compunham o cen\u00e1rio do chamado \u201c<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/638705-o-periodo-especial-cubano-interminavel\">Per\u00edodo Especial em tempos de paz<\/a>\u201d. Estudos sobre a economia cubana estimam que, entre 1989 e meados dos anos 1990, o pa\u00eds perdeu cerca de 35% do seu PIB, uma contra\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 de guerras ou grandes depress\u00f5es.<\/p>\n<figure class=\"align-left \"><\/figure>\n<p>Em julho de 1995, voltei \u00e0 ilha para o meu segundo evento acad\u00eamico e encontrei o mesmo pa\u00eds, mas com sinais discretos de adapta\u00e7\u00e3o: pequenos restaurantes familiares, mercados informais, circula\u00e7\u00e3o de d\u00f3lares ao lado de uma moeda convers\u00edvel \u2013 fen\u00f4menos registrados pela literatura como efeitos da legaliza\u00e7\u00e3o da moeda estrangeira em 1993 e da <a href=\"https:\/\/thecubaneconomy.com\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/Cubas-Economy-during-the-Special-Period-1990-2010.-Cuba-Encyclopedia-Essay-October12.docx\">abertura inicial ao turismo e \u00e0s joint ventures<\/a>.<\/p>\n<p>Hoje, tr\u00eas d\u00e9cadas depois do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Cuba enfrenta outra encruzilhada hist\u00f3rica. Ecoando, em escala distinta, a press\u00e3o que marcou a invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos, agora sob a sombra de um presidente norte\u2011americano que fala abertamente em \u201ctomar\u201d a ilha.<\/p>\n<p>Desde o seu retorno \u00e0 Casa Branca, Donald Trump combina \u201cpress\u00e3o m\u00e1xima\u201d \u2013 refor\u00e7o do embargo, novas san\u00e7\u00f5es, restri\u00e7\u00f5es a viagens e remessas \u2013 com declara\u00e7\u00f5es sobre uma \u201cfriendly takeover\u201d (\u201ctomada amig\u00e1vel\u201d) e mudan\u00e7a de regime como mera \u201cquest\u00e3o de tempo\u201d. Em janeiro de 2026, declarou \u201cemerg\u00eancia nacional\u201d em rela\u00e7\u00e3o a Cuba e assinou uma ordem executiva que abre espa\u00e7o para tarifas adicionais contra pa\u00edses que forne\u00e7am petr\u00f3leo \u00e0 ilha, ampliando o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2026\/2\/27\/trump-suggests-a-friendly-takeover-of-cuba-amid-us-fuel-blockade\">estrangulamento energ\u00e9tico e financeiro<\/a>.<\/p>\n<p>Entre o Per\u00edodo Especial e a atual ofensiva de Trump, houve uma breve janela de distens\u00e3o durante o governo Obama, com restabelecimento de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, reabertura de embaixadas (2015) e uma hist\u00f3rica visita presidencial a Havana (2016), al\u00e9m de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2014\/12\/18\/world\/americas\/us-cuba-relations.html\">amplas flexibiliza\u00e7\u00f5es em viagens e remessas<\/a>. Mas, mesmo nesse per\u00edodo, o embargo permaneceu legalmente vigente e Washington deixou claro que via a expans\u00e3o do setor privado cubano como instrumento de transforma\u00e7\u00e3o gradual da ilha.<\/p>\n<div class=\"slot clear\" data-id=\"17\"><\/div>\n<p>Cuba deixou de ser, h\u00e1 muito, a vitrine socialista cl\u00e1ssica da Guerra Fria. O que est\u00e1 em gesta\u00e7\u00e3o \u00e9 a possibilidade de o pa\u00eds se tornar um \u201ctubar\u00e3o caribenho\u201d, em analogia aos Tigres ou Drag\u00f5es Asi\u00e1ticos dos anos 1980 e 1990. Uma economia predominantemente capitalista, com forte presen\u00e7a de capital estrangeiro, sob a tutela de um Estado e de um partido \u00fanico. Em outras palavras, uma vers\u00e3o tropicalizada do Vietn\u00e3 \u2013 e potencialmente condicionada por um projeto norte\u2011americano de reabsor\u00e7\u00e3o tutelada.<\/p>\n<h2>Do Per\u00edodo Especial ao mercado controlado<\/h2>\n<p>Nesse contexto, surgiram as primeiras reformas de mercado em escala significativa. Em 1993, Havana legalizou a posse e o uso do d\u00f3lar, ampliou a abertura ao turismo internacional e permitiu a cria\u00e7\u00e3o de empresas mistas com capital estrangeiro, sobretudo no setor hoteleiro. Isso produziu uma economia segmentada em tr\u00eas circuitos: estatal, dolarizado e informal. Aquilo que observei nas ruas de Havana \u2013 pequenos neg\u00f3cios improvisados, como os famosos restaurantes paladares, redes de sobreviv\u00eancia baseadas em remessas, mercados paralelos \u2013 era o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sourcewatch.org\/index.php\/Special_Period_in_Time_of_Peace\">laborat\u00f3rio social dessa transi\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Com Ra\u00fal Castro, esse processo foi reordenado sob o r\u00f3tulo de \u201catualiza\u00e7\u00e3o do modelo econ\u00f4mico\u201d. Entre 2010 e 2011, o governo anunciou a dispensa de cerca de 500 mil trabalhadores estatais e ampliou a lista de atividades permitidas para o trabalho aut\u00f4nomo, chegando a aproximadamente 178 ocupa\u00e7\u00f5es para os\u00a0<em>cuentapropistas<\/em>\u00a0(aut\u00f4nomos).<\/p>\n<p>Em paralelo, criou condi\u00e7\u00f5es legais para pequenas e m\u00e9dias empresas privadas, concedeu terras em usufruto a agricultores e aprovou um novo marco para o investimento estrangeiro, com a Zona Especial de Desenvolvimento do Mariel como vitrine. O setor privado emergente passou a responder por consider\u00e1vel parte dos novos empregos, enquanto o setor estatal era \u201cenxugado\u201d.<\/p>\n<h2>Uma crise diferente da dos anos 1990<\/h2>\n<p>Quando se fala em risco de um novo Per\u00edodo Especial, \u00e9 tentador\u00a0<a href=\"https:\/\/cubaplatform.org\/special-period\">tra\u00e7ar um paralelismo direto com os anos 1990<\/a>. H\u00e1, de fato, pontos em comum: dificuldades de abastecimento, problemas energ\u00e9ticos, queda do poder de compra, desencanto com o futuro e uma nova onda de emigra\u00e7\u00e3o. Mas a crise atual \u00e9 qualitativamente distinta.<\/p>\n<p>Primeiro, existe um setor privado que n\u00e3o havia naquela escala. An\u00e1lises recentes estimam que, somando\u00a0<em>cuentapropistas<\/em>, trabalhadores de\u00a0<em>mipymes<\/em>\u00a0(micro, pequenas e m\u00e9dias empresas privadas ou mistas criadas a partir da nova legisla\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, principalmente depois de 2021) e agricultores privados, cerca de 1,6 milh\u00e3o de pessoas estavam ocupadas no setor n\u00e3o estatal em 2025 \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2026\/01\/05\/world\/americas\/trump-venezuela-cuba.html\">algo pr\u00f3ximo de metade da for\u00e7a de trabalho<\/a>.<\/p>\n<p>Em 2024\u20132025, o setor privado teria ultrapassado o Estado nas vendas de varejo, respondendo por mais de 50% do com\u00e9rcio ao consumidor. A crise incide, assim, sobre uma economia muito mais dualizada, com um segmento privado din\u00e2mico convivendo com um setor p\u00fablico ainda majorit\u00e1rio, mas em retra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-39161846\">a sociedade cubana est\u00e1 muito mais conectada<\/a>. Reformas em telecomunica\u00e7\u00f5es e a expans\u00e3o gradual do acesso \u00e0 internet e \u00e0s redes m\u00f3veis abriram canais de circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existiam nos anos 1990,\u00a0<a href=\"https:\/\/apnews.com\/article\/cuba-protests-us-embassy-food-shortages-power-blackouts-edba9c9929aa875935ab3843a6a6398c\">tornando protestos e mobiliza\u00e7\u00f5es mais vis\u00edveis e dif\u00edceis de conter<\/a>.<\/p>\n<p>Terceiro, o ambiente externo mudou. A alian\u00e7a com a Venezuela, que por anos forneceu petr\u00f3leo em condi\u00e7\u00f5es favorecidas e funcionou como \u201cURSS tardia\u201d para Cuba, entrou em decl\u00ednio com a crise venezuelana e as san\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, China, R\u00fassia e atores europeus constroem presen\u00e7a em setores como infraestrutura, turismo e biotecnologia, vendo na ilha uma economia h\u00edbrida em transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Soma\u2011se a isso uma lideran\u00e7a norte\u2011americana que exibe um comportamento abertamente imperial, diante de uma oposi\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica fragmentada e de uma rea\u00e7\u00e3o internacional pouco efetiva.<\/p>\n<p>Por fim, a press\u00e3o de Washington adquiriu um novo formato. Em janeiro de 2026, a Casa Branca declarou emerg\u00eancia nacional em rela\u00e7\u00e3o a Cuba e estabeleceu um arcabou\u00e7o de tarifas e san\u00e7\u00f5es contra pa\u00edses que abaste\u00e7am a ilha com petr\u00f3leo, ampliando o alcance extraterritorial do embargo.<\/p>\n<p>Em discursos e entrevistas, Trump afirmou que seria \u201cuma honra tomar Cuba\u201d e que a mudan\u00e7a de regime \u00e9 apenas \u201cquest\u00e3o de tempo\u201d, reeditando a l\u00f3gica intervencionista no Caribe\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gtlaw.com\/en\/insights\/2026\/2\/us-declares-national-emergency-on-cuba-and-announces-tariff-framework-targeting-oil-suppliers\">sob a ret\u00f3rica de \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d e oportunidades de neg\u00f3cios<\/a>.<\/p>\n<h2>China do Caribe, Venezuela tutelada ou algo novo?<\/h2>\n<p>Uma hip\u00f3tese plaus\u00edvel \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o de um modelo de \u201csocialismo de mercado\u201d \u00e0 la China ou Vietn\u00e3: partido \u00fanico, forte controle pol\u00edtico, abertura gradual e seletiva aos capitais estrangeiros, est\u00edmulo a um empresariado nacional alinhado ao Estado e prioridade para setores estrat\u00e9gicos como turismo, biotecnologia, log\u00edstica, energia e servi\u00e7os m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Documentos oficiais da \u201catualiza\u00e7\u00e3o\u201d e an\u00e1lises externas convergem na ideia de que Havana busca combinar disciplina pol\u00edtica com pragmatismo econ\u00f4mico,\u00a0<a href=\"https:\/\/horizontecubano.law.columbia.edu\/news\/expansion-private-sector-cuba\">atraindo alguns bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais em investimento direto<\/a>.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a met\u00e1fora do \u201ctubar\u00e3o caribenho\u201d ajuda a pensar a ilha como candidata a ator regional de peso. A posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica entre Am\u00e9rica do Norte, Caribe e Am\u00e9rica Latina, o capital humano qualificado \u2013 sobretudo em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o \u2013 e a experi\u00eancia em servi\u00e7os m\u00e9dicos e biotecnologia s\u00e3o apontados como vantagens. O \u201ctubar\u00e3o\u201d seria uma esp\u00e9cie de tigre asi\u00e1tico tropical: pequeno em escala demogr\u00e1fica, mas agressivo em nichos espec\u00edficos da economia mundial.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 obst\u00e1culos significativos. Cuba n\u00e3o disp\u00f5e da escala demogr\u00e1fica e do mercado interno da China; enfrenta baixa produtividade, escassez cr\u00f4nica de financiamento externo e vulnerabilidade a choques, especialmente em energia e alimentos. Em termos de sistema\u2011mundo, trata\u2011se de uma economia perif\u00e9rica tentando um \u201csalto\u201d dentro de uma estrutura ainda organizada a partir dos interesses das pot\u00eancias centrais, em especial os EUA.<\/p>\n<p>Da\u00ed surge um segundo cen\u00e1rio, j\u00e1 esbo\u00e7ado pela pr\u00f3pria administra\u00e7\u00e3o Trump no caso venezuelano: o da reintegra\u00e7\u00e3o \u201ctutelada\u201d. Na Venezuela, Washington combina press\u00e3o militar e judicial, flexibiliza\u00e7\u00e3o seletiva de san\u00e7\u00f5es e reabertura para grandes empresas de energia,\u00a0<a href=\"https:\/\/en.unav.edu\/web\/global-affairs\/detalle\/-\/blogs\/raul-castro-una-apertura-economica-con-pocos-resultados\">reorganizando o setor petroleiro sob forte condicionamento norte\u2011americano<\/a>.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a Cuba, o roteiro guarda semelhan\u00e7as: emerg\u00eancia nacional, amea\u00e7a de punir pa\u00edses que fornecem petr\u00f3leo, intensifica\u00e7\u00e3o do embargo e, em paralelo, o recado de que Havana poderia \u201cevitar o pior\u201d mediante devolu\u00e7\u00e3o de propriedades, abertura ampla a capitais dos EUA e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n<p>Imaginar Cuba como um \u201ctubar\u00e3o caribenho\u201d significa, portanto, admitir que esse animal nadaria em \u00e1guas mapeadas por Washington. O mesmo governo que hoje estrangula a economia com san\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas e financeiras poderia, amanh\u00e3, apresentar\u2011se como arquiteto de uma \u201crecupera\u00e7\u00e3o\u201d baseada em privatiza\u00e7\u00f5es, devolu\u00e7\u00e3o de ativos a empresas norte\u2011americanas e convers\u00e3o da ilha em plataforma de neg\u00f3cios sob sua prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o devemos esquecer que a estrutura pol\u00edtico\u2011ideol\u00f3gica cubana n\u00e3o se assemelha em nada \u00e0 venezuelana sob o ponto de vista da coes\u00e3o. A atua\u00e7\u00e3o do Partido Comunista de Cuba n\u00e3o se deu de \u201ccima para baixo\u201d como em muitos regimes do Leste Europeu, por exemplo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma ideologia artificial: at\u00e9 o presente momento, mesmo com as press\u00f5es dos EUA desde os anos 1960, o regime se manteve coeso e centralizado, com forte enraizamento social, nacionalismo intenso, um permanente \u201ccomplexo de cerco\u201d e a explica\u00e7\u00e3o das mazelas internas pelo bloqueio econ\u00f4mico. Por\u00e9m, o cen\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o favor\u00e1vel como antes.<\/p>\n<h2>Um tubar\u00e3o cercado por redes<\/h2>\n<p>A trajet\u00f3ria das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas sugere que Cuba possa caminhar para uma forma de p\u00f3s\u2011comunismo em que a economia tende a tornar\u2011se predominantemente capitalista, com m\u00faltiplos atores privados e forte presen\u00e7a de investimento estrangeiro; o Estado e o partido buscam preservar o controle pol\u00edtico; e a depend\u00eancia externa se reconfigura, deslocando\u2011se de um outrora eixo sovi\u00e9tico para uma constela\u00e7\u00e3o de capitais norte\u2011americanos, europeus e asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Estat\u00edsticas recentes indicam queda do n\u00famero de empregados p\u00fablicos (de cerca de 3,1 milh\u00f5es em 2019 para 2,7 milh\u00f5es em 2023) e crescimento acelerado do setor privado, que j\u00e1 domina mais da metade das vendas no varejo.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a, em rela\u00e7\u00e3o aos anos 1990 que testemunhei em Havana, \u00e9 que agora a transi\u00e7\u00e3o interna ocorre sob a press\u00e3o expl\u00edcita de um governo norte\u2011americano que n\u00e3o esconde ambi\u00e7\u00f5es de expans\u00e3o e mudan\u00e7a de regime. Quando Trump afirma que seria \u201cuma honra tomar Cuba\u201d e que o governo da ilha est\u00e1 \u201cpronto para cair\u201d,\u00a0<a href=\"https:\/\/tempestmag.org\/2026\/03\/trumps-mounting-threats-against-cuba\/\">ele sinaliza, ao mesmo tempo, amea\u00e7a e oportunidade<\/a>. Quanto mais a economia for empurrada ao limite, mais plaus\u00edvel se torna uma sa\u00edda em que o \u201ctubar\u00e3o caribenho\u201d surja como criatura de um arranjo negociado com Washington, e n\u00e3o apenas como produto das reformas iniciadas no Per\u00edodo Especial.<\/p>\n<p>Se na Havana de 1994 e 1995 era desafiador imaginar um futuro de capitalismo administrado, hoje esse futuro se insinua em cada reforma econ\u00f4mica, em cada negocia\u00e7\u00e3o com investidores e em cada protesto contra a escassez. Cuba j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que foi, mas tampouco \u00e9 ainda aquilo que pode se tornar. A pergunta que resta \u00e9 se ser\u00e1 capaz de transformar a vulnerabilidade em impulso e emergir, de fato, como um tubar\u00e3o caribenho \u2013 e a que custo social e pol\u00edtico isso acontecer\u00e1.<\/p>\n<p>https:\/\/theconversation.com\/cuba-e-a-ameaca-ianque-30-anos-depois-como-trump-e-a-crise-economica-mundial-estao-pressionando-a-ilha-278861<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como nos anos 90, dificuldades de abastecimento, problemas energ\u00e9ticos, queda do poder de compra, desencanto com o futuro e nova onda de emigra\u00e7\u00e3o voltam \u00e0 pauta de preocupa\u00e7\u00f5es. Mas a crise atual \u00e9 qualitativamente distinta. Cuba hoje \u00e9 um pa\u00eds muito mais maduro economicamente.<\/p><p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2026\/04\/09\/cuba-e-a-ameaca-ianque-30-anos-depois-como-trump-e-a-crise-economica-mundial-estao-pressionando-a-ilha-por-charles-pennaforte\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":636,"featured_media":2725,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[75,21,28,1],"tags":[64,60,14,4,27],"class_list":["post-2723","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-expert-opinions","category-labgrima-expert","category-news","category-noticias","tag-america-latina","tag-cuba","tag-eua","tag-geopolitica","tag-latin-america","nodate","item-wrap"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/files\/2026\/03\/cuba-wikipedia.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/users\/636"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2723"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2727,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723\/revisions\/2727"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}