{"id":2710,"date":"2026-03-21T11:12:28","date_gmt":"2026-03-21T14:12:28","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/?p=2710"},"modified":"2026-03-21T11:52:14","modified_gmt":"2026-03-21T14:52:14","slug":"a-nova-disputa-de-poder-global-como-paises-fora-do-eixo-eua-uniao-europeia-remodelam-as-relacoes-internacionais-por-charles-pennaforte-the-conversationn","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2026\/03\/21\/a-nova-disputa-de-poder-global-como-paises-fora-do-eixo-eua-uniao-europeia-remodelam-as-relacoes-internacionais-por-charles-pennaforte-the-conversationn\/","title":{"rendered":"A nova disputa de poder global: como pa\u00edses fora do eixo EUA\u2011Uni\u00e3o Europeia remodelam as rela\u00e7\u00f5es internacionais por Charles Pennaforte | The Conversation"},"content":{"rendered":"<p>\u201cImperativo antissist\u00eamico\u201d: A press\u00e3o geopol\u00edtica criada por san\u00e7\u00f5es, guerras e crises provocadas pelos EUA e pela Europa obrigam pa\u00edses a escolher entre a acomoda\u00e7\u00e3o ou a contesta\u00e7\u00e3o. Os chamados Estados Proativos, cujos principais representantes seriam a R\u00fassia, a China e o Ir\u00e3, enfrentam diretamente essa ordem geopol\u00edtica e buscam transform\u00e1\u2011la.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quando a R\u00fassia invadiu a Ucr\u00e2nia em 2022, muitos analistas apostaram que o pa\u00eds seria isolado pelo \u201cOcidente\u201d. Mas China, \u00cdndia, Brasil e v\u00e1rios outros Estados n\u00e3o aderiram \u00e0s san\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio: aumentaram o com\u00e9rcio com Moscou, negociaram em moedas alternativas e refor\u00e7aram f\u00f3runs como o BRICS.<\/p>\n<p>Diversos analistas descrevem o momento atual como uma \u2018<a href=\"https:\/\/rsdd.esd.gov.br\/index.php\/rsdd\/article\/view\/64\">multipolaridade inst\u00e1vel<\/a>\u2019, isto \u00e9, um mundo com v\u00e1rios centros de poder, mas sem regras claras ou lideran\u00e7a est\u00e1vel. Neste artigo, uso essa ideia como ponto de partida para apresentar a minha pr\u00f3pria proposta: entender a atua\u00e7\u00e3o dos Estados Ativos e Proativos diante do que chamo de imperativo antissist\u00eamico.<\/p>\n<h2>O que \u00e9 o \u201cimperativo antissist\u00eamico\u201d<\/h2>\n<p>Num artigo que\u00a0<a href=\"https:\/\/seer.ufrgs.br\/index.php\/austral\/article\/view\/143915\">publiquei na revista Austral<\/a>, descrevo a Guerra da Ucr\u00e2nia como um imperativo antissist\u00eamico: um momento em que san\u00e7\u00f5es, guerras e crises produzidas pelo centro do sistema (EUA e Uni\u00e3o Europeia) pressionam Estados perif\u00e9ricos e semiperif\u00e9ricos (Sul Global) a escolher entre acomodar\u2011se ou contestar a ordem vigente. Os Estados Proativos \u2013 R\u00fassia, China, Ir\u00e3 \u2013 enfrentam diretamente essa ordem geopol\u00edtica e buscam transform\u00e1\u2011la; os Estados Ativos \u2013 como Brasil e \u00cdndia, por exemplo \u2013 procuram limitar o poder das grandes pot\u00eancias por meio de diplomacia e iniciativas como o BRICS, sem confronto frontal.<\/p>\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o entre choque externo e resposta organizada ajuda a entender por que a guerra n\u00e3o ficou restrita ao campo de batalha. Ela redefiniu alian\u00e7as, acelerou o processo de desdolariza\u00e7\u00e3o que certamente levar\u00e1 d\u00e9cadas para competir com o d\u00f3lar em partes do Sul Global e exp\u00f4s os limites da hegemonia ocidental.<\/p>\n<h2>Estados Proativos: criar uma nova din\u00e2mica geopol\u00edtica<\/h2>\n<p>Na minha tipologia, Estados Proativos s\u00e3o aqueles que assumem um confronto direto com o centro hegem\u00f4nico, buscando alterar explicitamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as do sistema internacional. Eles n\u00e3o apenas criticam a ordem liderada pelos EUA e agora agressiva comanda por Donald Trump: investem recursos econ\u00f4micos, militares e diplom\u00e1ticos para substitu\u00ed\u2011la por outra geopol\u00edtica sem afetar necessariamente o sistema econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A R\u00fassia \u00e9 o exemplo mais evidente desde 2014, e especialmente ap\u00f3s 2022. Ao desafiar a expans\u00e3o da OTAN por meios militares, Moscou aceita o custo de san\u00e7\u00f5es amplas, isolamento em organismos ocidentais e uma guerra prolongada. Em troca, aprofunda la\u00e7os com China, Ir\u00e3 e Coreia do Norte, tenta contornar o d\u00f3lar e busca reposicionar\u2011se como polo de um bloco abertamente antag\u00f4nico ao Ocidente.<\/p>\n<div class=\"slot clear\" data-id=\"17\"><\/div>\n<p>A China atua de forma distinta \u2013 com mais \u00eanfase econ\u00f4mica do que militar \u2013, mas tamb\u00e9m se encaixa na categoria Proativa. A\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/crzloPZB1mg?si=S8jG9aiSkGsO14p5\">Iniciativa do Cintur\u00e3o e Rota<\/a>, os bancos asi\u00e1ticos alternativos e o uso crescente do yuan em transa\u00e7\u00f5es internacionais formam um projeto de longo prazo para reduzir a centralidade financeira e log\u00edstica dos EUA e da Europa.<\/p>\n<p>O ponto em comum \u00e9 claro: Estados Proativos n\u00e3o se limitam a resistir. Eles planejam alternativas, constroem institui\u00e7\u00f5es alternativas e atuam como arquitetos de uma nova ordem, ainda que de forma fragmentada e arriscada inicialmente.<\/p>\n<h2>Estados Ativos: reconhecendo as suas limita\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas<\/h2>\n<p>Estados Ativos tamb\u00e9m contestam a ordem centrada no Ocidente, mas evitam o confronto frontal. Em vez de se colocarem como antagonistas \u201cradicais\u201d da atual ordem geopol\u00edtica, preferem explorar brechas e contradi\u00e7\u00f5es, ampliando sua autonomia passo a passo.<\/p>\n<p>Brasil, \u00cdndia e \u00c1frica do Sul s\u00e3o bons exemplos. Eles participam do BRICS, defendem reformas em organismos como FMI e Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, ampliam o com\u00e9rcio com China e R\u00fassia, mas ao mesmo tempo mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es importantes com Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia. \u00c9 uma estrat\u00e9gia de equil\u00edbrio fino: ganhar espa\u00e7o sem acender todos os alarmes em Washington e Bruxelas.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, essa postura ficou vis\u00edvel ap\u00f3s 2022. O pa\u00eds condenou a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia na ONU, mas recusou san\u00e7\u00f5es, manteve a compra de fertilizantes russos e apoiou a expans\u00e3o do BRICS para incluir pa\u00edses como Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos e Ir\u00e3. Ao mesmo tempo, preservou exporta\u00e7\u00f5es de commodities para a China e v\u00ednculos econ\u00f4micos e militares com os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ser um Estado Ativo, portanto, n\u00e3o \u00e9 \u201cficar em cima do muro\u201d. \u00c9 usar diplomacia, com\u00e9rcio e f\u00f3runs multilaterais para ampliar margens de manobra, sem romper com o Ocidente nem aceitar passivamente seu comando.<\/p>\n<h2>Por que isso importa?<\/h2>\n<p>Pode parecer um debate t\u00e9cnico, mas n\u00e3o \u00e9. A forma como Estados Ativos e Proativos respondem ao imperativo antissist\u00eamico afeta diretamente temas do dia a dia: pre\u00e7o de combust\u00edveis e alimentos, estabilidade do c\u00e2mbio, oportunidades de trabalho, seguran\u00e7a energ\u00e9tica, investimentos em infraestrutura.<\/p>\n<p>Quando R\u00fassia e Ir\u00e3 decidem vender petr\u00f3leo fora do d\u00f3lar, ou quando BRICS discute maior uso de moedas locais, isso mexe com o custo de financiamento global e com a vulnerabilidade de pa\u00edses endividados. Quando Brasil e \u00cdndia se aproximam da China para projetos de infraestrutura e tecnologia, abrem\u2011se alternativas a empr\u00e9stimos condicionados de institui\u00e7\u00f5es ocidentais.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a escalada de tens\u00f5es entre blocos \u2013 OTAN de um lado, eixos R\u00fassia\u2011China\u2011Ir\u00e3 de outro \u2013 aumenta o risco de conflitos regionais, crises de abastecimento e guerras de informa\u00e7\u00e3o. Entender quem \u00e9 Ativo e quem \u00e9 Proativo ajuda a ler essas movimenta\u00e7\u00f5es para al\u00e9m da superf\u00edcie das not\u00edcias.<\/p>\n<h2>O que est\u00e1 em jogo na pr\u00f3xima d\u00e9cada<\/h2>\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia n\u00e3o criou a crise da ordem ocidental, mas acelerou um processo que vinha de antes: desgaste da hegemonia dos EUA, fraturas na Uni\u00e3o Europeia, ascens\u00e3o econ\u00f4mica da China e fortalecimento pol\u00edtico de atores do Sul Global. O \u201cimperativo antissist\u00eamico\u201d torna mais desafiadora a neutralidade, empurrando Estados a escolher caminhos.<\/p>\n<p>Se Estados Proativos conseguirem consolidar institui\u00e7\u00f5es alternativas \u2013 financeiras, tecnol\u00f3gicas, militares \u2013, veremos uma multipolaridade mais n\u00edtida, com v\u00e1rios centros de poder em competi\u00e7\u00e3o aberta. Se Estados Ativos ampliarem sua coordena\u00e7\u00e3o, especialmente no BRICS ampliado, podem reduzir assimetrias hist\u00f3ricas sem cair em novas depend\u00eancias.<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 no centro dessa encruzilhada. Ao manter\u2011se como Estado Ativo, ele pode continuar ganhando espa\u00e7o de negocia\u00e7\u00e3o entre Ocidente, BRICS e demais pa\u00edses do Sul Global. A quest\u00e3o \u00e9 se ter\u00e1 projeto de longo prazo para transformar essa atua\u00e7\u00e3o ativa em proatividade em \u00e1reas espec\u00edficas \u2013 como transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, seguran\u00e7a alimentar e tecnologia cr\u00edtica \u2013 ou se ficar\u00e1 restrito a administrar crises produzidas por outros.<\/p>\n<p>https:\/\/theconversation.com\/a-nova-disputa-de-poder-global-como-paises-fora-do-eixo-eua-uniao-europeia-remodelam-as-relacoes-internacionais-278593<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cImperativo antissist\u00eamico\u201d: A press\u00e3o geopol\u00edtica criada por san\u00e7\u00f5es, guerras e crises provocadas pelos EUA e pela Europa obrigam pa\u00edses a escolher entre a acomoda\u00e7\u00e3o ou a contesta\u00e7\u00e3o. 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