{"id":2662,"date":"2026-01-21T16:04:04","date_gmt":"2026-01-21T19:04:04","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/?p=2662"},"modified":"2026-01-21T16:04:04","modified_gmt":"2026-01-21T19:04:04","slug":"do-quintal-ao-laboratorio-a-venezuela-na-estrategia-de-poder-dos-eua-por-charles-pennaforte-the-conversation-br","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2026\/01\/21\/do-quintal-ao-laboratorio-a-venezuela-na-estrategia-de-poder-dos-eua-por-charles-pennaforte-the-conversation-br\/","title":{"rendered":"Do \u201cquintal\u201d ao laborat\u00f3rio: a Venezuela na estrat\u00e9gia de poder dos EUA por Charles Pennaforte | The Conversation br."},"content":{"rendered":"<p>A\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Interven%C3%A7%C3%A3o_militar_dos_Estados_Unidos_na_Venezuela\">invas\u00e3o da Venezuela pelos Estados Unidos<\/a>\u00a0foi justificada em nome da defesa da democracia e do combate a amea\u00e7as difusas \u00e0 seguran\u00e7a internacional, como o narcotr\u00e1fico. Na verdade, ela exp\u00f5e de forma contundente a dist\u00e2ncia entre a ret\u00f3rica normativa da pol\u00edtica externa norte\u2011americana, em especial da administra\u00e7\u00e3o Donald Trump, e a pr\u00e1tica de um poder que se autoriza a violar, quando lhe conv\u00e9m, as regras elementares do direito internacional.<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio n\u00e3o \u00e9 um \u201cacidente\u201d na ordem liberal, mas sintoma avan\u00e7ado de sua eros\u00e3o: quanto mais o centro hegem\u00f4nico perde capacidade de dire\u00e7\u00e3o consensual, mais recorre \u00e0 coer\u00e7\u00e3o aberta, sobretudo em seu entorno imediato.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria venezuelana desde\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hugo_Ch%C3%A1vez\">Hugo Ch\u00e1vez<\/a>\u00a0configurou, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es, um processo de contesta\u00e7\u00e3o ao padr\u00e3o hist\u00f3rico de depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a Washington e ao receitu\u00e1rio econ\u00f4mico dominante. Ao reestatizar setores estrat\u00e9gicos, utilizar a renda petroleira para programas de inclus\u00e3o social e aproximar\u2011se de atores como China, R\u00fassia, Ir\u00e3 e Cuba, Caracas passou a ocupar um lugar inc\u00f4modo na geopol\u00edtica regional.<\/p>\n<p>A Venezuela deixou de ser mera fornecedora de petr\u00f3leo para tornar\u2011se ator que busca disputar narrativas, institui\u00e7\u00f5es e fluxos econ\u00f4micos em escala mais ampla. N\u00e3o surpreende, portanto, que se tenha transformado em alvo priorit\u00e1rio de campanhas de isolamento, de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/San%C3%A7%C3%B5es_contra_a_Venezuela\">san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas<\/a>\u00a0e, por fim, de interven\u00e7\u00e3o militar direta.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso entender que o quadro de pen\u00faria econ\u00f4mica pelo qual passa a Venezuela n\u00e3o decorre apenas dos erros e contradi\u00e7\u00f5es do chavismo nos \u00faltimos 25 anos, que s\u00e3o ineg\u00e1veis, mas tamb\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o direta de Washington por meio dessas san\u00e7\u00f5es, embargos e mecanismos de estrangulamento financeiro.<\/p>\n<div class=\"slot clear\" data-id=\"17\"><\/div>\n<p>Em vez de tratar a Venezuela como mais um \u201cproblema de governan\u00e7a dom\u00e9stica\u201d, a pol\u00edtica externa norte\u2011americana a enquadra como desvio intoler\u00e1vel em um espa\u00e7o que, na l\u00f3gica de dois s\u00e9culos de doutrinas de seguran\u00e7a dos EUA, deveria permanecer politicamente previs\u00edvel e alinhado.<\/p>\n<h2>Esfera de influ\u00eancia a ser tutelada<\/h2>\n<p>A Am\u00e9rica Latina segue constru\u00edda, nos documentos estrat\u00e9gicos norte\u2011americanos, n\u00e3o como regi\u00e3o dotada de ag\u00eancia plena, mas como esfera de influ\u00eancia a ser tutelada, ora sob o signo do anticomunismo, ora sob o manto da \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d e de doutrinas como a Responsabilidade de Proteger (R2P).<\/p>\n<p>Quando um governo insiste em escapar a esse enquadramento, em especial ao articular alian\u00e7as com rivais globais de Washington, a resposta tende a ser menos diplom\u00e1tica e mais punitiva, atualizando a velha l\u00f3gica do \u201cquintal\u201d sob novas roupagens normativas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista jur\u00eddico, a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 indefens\u00e1vel. N\u00e3o houve ataque armado da Venezuela aos Estados Unidos que pudesse acionar o direito de autodefesa, tampouco houve autoriza\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a para qualquer uso da for\u00e7a.<\/p>\n<p>Invocar um governo paralelo ou uma suposta \u201cmiss\u00e3o de aplica\u00e7\u00e3o da lei\u201d para capturar o presidente de um Estado soberano em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio \u00e9 tentativa transparente de esvaziar os limites colocados pela Carta da ONU. A pr\u00f3pria controv\u00e9rsia em torno da R2P e da chamada\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Responsabilidade_de_proteger\">Responsabilidade ao Proteger<\/a>\u00a0mostra o receio de que tais conceitos sejam apropriados para legitimar interven\u00e7\u00f5es unilaterais e mudan\u00e7as de regime seletivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Direito internacional como fic\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Aceitar a excepcionalidade norte\u2011americana significa admitir, na pr\u00e1tica, que o direito internacional funcione como fic\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria para os fracos, enquanto os fortes operam segundo a lei do mais forte. A captura de um chefe de Estado e o bombardeio da capital venezuelana, celebrados por parte da m\u00eddia como demonstra\u00e7\u00e3o de \u201cdecis\u00e3o\u201d e \u201clideran\u00e7a\u201d, constituem, do ponto de vista normativo, um retrocesso civilizat\u00f3rio que remete a formas de abdu\u00e7\u00e3o internacional t\u00edpicas do imperialismo cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Ao abrir esse precedente, os Estados Unidos n\u00e3o apenas deslegitimam sua pr\u00f3pria pretens\u00e3o de lideran\u00e7a \u201cbaseada em regras\u201d, como oferecem justificativa t\u00e1cita para que outras pot\u00eancias fa\u00e7am o mesmo quando julgarem conveniente.<\/p>\n<p>A escalada contra Caracas n\u00e3o resolve\u00a0<a href=\"https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/brasil\/crise-da-ordem-mundial-e-disputa-por-sua-reconfiguracao\/\">a crise da hegemonia norte\u2011americana<\/a>; ao contr\u00e1rio, tende a aprofund\u00e1\u2011la. O sequestro de Maduro e o intento de \u201cadministrar\u201d a Venezuela a partir de Washington n\u00e3o garantem estabilidade pol\u00edtica duradoura, tampouco recolocam os EUA na posi\u00e7\u00e3o de \u00e1rbitro incontestado do sistema internacional.<\/p>\n<p>Observa\u2011se, em vez disso, o aumento da desconfian\u00e7a de diversos governos latino\u2011americanos, o fortalecimento de narrativas que apontam o car\u00e1ter seletivo e instrumental do discurso de direitos humanos e democracia e a busca acelerada de alternativas de financiamento, seguran\u00e7a e coopera\u00e7\u00e3o com atores extrarregionais.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com outros conflitos recentes torna o quadro ainda mais problem\u00e1tico. Se a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia foi amplamente \u2014 e corretamente \u2014 denunciada como viola\u00e7\u00e3o flagrante da Carta da ONU, em que exatamente difere, na gram\u00e1tica jur\u00eddica, o ataque dos EUA \u00e0 Venezuela, com bombardeios, mortes e sequestro de chefe de Estado?<\/p>\n<p>A tentativa de estabelecer distin\u00e7\u00f5es morais \u2014 \u201cdemocracias versus autoritarismos\u201d, \u201cditaduras versus mundo livre\u201d \u2014 n\u00e3o altera o fato de que, do ponto de vista dos princ\u00edpios, ambos os casos representam uso ilegal da for\u00e7a, refor\u00e7ando a percep\u00e7\u00e3o de duplo padr\u00e3o na rea\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<h2>Advert\u00eancia e laborat\u00f3rio<\/h2>\n<p>A invas\u00e3o da Venezuela funciona, assim, como advert\u00eancia e laborat\u00f3rio. Advert\u00eancia, porque sinaliza a disposi\u00e7\u00e3o de Washington em empregar meios extremos para reconduzir seu \u201cquintal\u201d a uma posi\u00e7\u00e3o de docilidade, ainda que ao custo de corroer a legitimidade do multilateralismo. Laborat\u00f3rio, porque testa at\u00e9 onde v\u00e3o as divis\u00f5es regionais, a paralisia do Conselho de Seguran\u00e7a e a capacidade de resist\u00eancia diplom\u00e1tica e econ\u00f4mica de pa\u00edses que se recusam a endossar o ataque.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cse a invas\u00e3o foi legal\u201d \u2014 problema j\u00e1 respondido de forma negativa por ampla maioria dos juristas \u2014, mas que tipo de ordem internacional se pretende normalizar a partir desse precedente. \u00c9 incompat\u00edvel com qualquer projeto s\u00e9rio de multilateralismo substantivo uma ordem em que a soberania de Estados perif\u00e9ricos \u00e9 condicional ao humor das pot\u00eancias. E em que o discurso de prote\u00e7\u00e3o de direitos serve como pretexto para reorganizar, pelo uso da for\u00e7a, espa\u00e7os estrat\u00e9gicos ricos em recursos naturais, como indica a pr\u00f3pria\u00a0<a href=\"https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/historia-da-america\/crise-na-venezuela.htm\">crise na Venezuela<\/a>.<\/p>\n<p>Aceitar a naturaliza\u00e7\u00e3o desse tipo de interven\u00e7\u00e3o significa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, aceitar a perman\u00eancia de uma hierarquia internacional em que alguns Estados s\u00e3o sujeitos de direito, e outros, meros objetos de administra\u00e7\u00e3o e coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A guerra prolongada de Washington contra Caracas \u2014 descrita por alguns autores como uma verdadeira \u201c<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/colunista\/vijay-prashad\/2025\/12\/30\/a-guerra-dos-eua-contra-a-venezuela-comecou-em-2001\/\">guerra dos EUA contra a Venezuela<\/a>\u201d \u2014 insere\u2011se, portanto, na disputa mais ampla pela reconfigura\u00e7\u00e3o da ordem mundial. Ao transformar a Venezuela em exemplo e teste, a pol\u00edtica norte\u2011americana envia um recado n\u00e3o apenas \u00e0 regi\u00e3o, mas a todos os pa\u00edses que ousam contestar a hierarquia vigente: a soberania \u00e9 negoci\u00e1vel, e os custos da insubordina\u00e7\u00e3o podem ser administrados em nome de princ\u00edpios universais manejados de forma seletiva. Uma quest\u00e3o permanece em aberto, com fortes implica\u00e7\u00f5es para o futuro da ordem internacional: quem vai deter essa escalada e impedir que o \u201claborat\u00f3rio venezuelano\u201d se converta em norma para todo o sistema?<\/p>\n<p>https:\/\/theconversation.com\/do-quintal-ao-laboratorio-a-venezuela-na-estrategia-de-poder-dos-eua-273784<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0invas\u00e3o da Venezuela pelos Estados Unidos\u00a0foi justificada em nome da defesa da democracia e do combate a amea\u00e7as difusas \u00e0 seguran\u00e7a internacional, como o narcotr\u00e1fico. 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