{"id":1228,"date":"2023-03-16T14:29:25","date_gmt":"2023-03-16T17:29:25","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/?p=1228"},"modified":"2023-03-16T14:29:25","modified_gmt":"2023-03-16T17:29:25","slug":"novos-ventos-no-oriente-medio-a-china-e-o-restabelecimento-de-relacoes-entre-arabia-saudita-e-ira-by-mateus-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2023\/03\/16\/novos-ventos-no-oriente-medio-a-china-e-o-restabelecimento-de-relacoes-entre-arabia-saudita-e-ira-by-mateus-santos\/","title":{"rendered":"Novos ventos no Oriente M\u00e9dio? A China e o restabelecimento de rela\u00e7\u00f5es entre Ar\u00e1bia Saudita e Ir\u00e3 by Mateus Santos"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O tema da vez no Oriente M\u00e9dio \u00e9 o restabelecimento de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre Riad e Teer\u00e3. Sob a media\u00e7\u00e3o chinesa, antigos advers\u00e1rios regionais deram um relevante passo no intuito de uma poss\u00edvel estabiliza\u00e7\u00e3o do Golfo P\u00e9rsico, sendo poss\u00edvel aspirar consequ\u00eancias que atravessam as fronteiras dessa estrat\u00e9gica regi\u00e3o petrol\u00edfera. <\/span><\/span><!--more--><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No documento assinado pelas representa\u00e7\u00f5es dos tr\u00eas pa\u00edses, soberania e n\u00e3o-inger\u00eancia deram o tom de um epis\u00f3dio que tende a representar uma importante vit\u00f3ria diplom\u00e1tica da China diante de uma regi\u00e3o historicamente moldada pelos interesses estadunidenses nas \u00faltimas d\u00e9cadas. No mesmo sentido, a costura efetivada por Pequim sinaliza sua capacidade de influ\u00eancia e seu papel dentro de um processo de diversifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es exteriores de atores historicamente vinculados aos interesses Ocidentais na regi\u00e3o, como o caso da Ar\u00e1bia Saudita.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Para refletir acerca da import\u00e2ncia desse processo em n\u00edvel regional e global, este texto analisa a dimens\u00e3o hist\u00f3rica dessa movimenta\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica, apontando-a como um fen\u00f4meno que representa, ao mesmo tempo, a consolida\u00e7\u00e3o de constrangimentos sist\u00eamicos que estruturam as rela\u00e7\u00f5es internacionais do Oriente M\u00e9dio nas \u00faltimas duas ou tr\u00eas d\u00e9cadas e, ao mesmo tempo, a possibilidade de estarmos diante de uma nova e talvez in\u00e9dita p\u00e1gina capaz de reorganizar todo um subsistema regional. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Uma p\u00e1gina virada? Sauditas e Iranianos na Geopol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Uma das primeiras faces da dimens\u00e3o hist\u00f3rica de tal acordo \u00e9 constituir um poss\u00edvel ponto de encontro no interior de uma trajet\u00f3ria de significativos desencontros nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica de 1979, o Ir\u00e3 constituiu uma das principais amea\u00e7as ao conceito de seguran\u00e7a regional da Ar\u00e1bia Saudita. Tornando-se um referencial Estado Xiita em N\u00edvel Regional, o regime dos Aiatol\u00e1s materializaria uma perspectiva institucional alternativa do isl\u00e3 pol\u00edtico frente ao tradicional papel cumprido pela monarquia Wahabita no P\u00f3s-Guerra. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">As diferen\u00e7as doutrin\u00e1rias e ideol\u00f3gicas foram acompanhadas por disputas no campo da Geopol\u00edtica, opondo os dois Estados em diferentes cen\u00e1rios de guerra civil ou conflitos interestatais contempor\u00e2neos, a exemplo das Guerras entre Ir\u00e3 e Iraque nos anos 1980 e conflitos mais recentes como na S\u00edria e no I\u00eamen. Assumindo as respectivas condi\u00e7\u00f5es de pot\u00eancia regional \u00e1rabe e pot\u00eancia regional no Oriente M\u00e9dio, Ar\u00e1bia Saudita e Ir\u00e3 constituem dois dos Estados mais importantes no desafio de estabiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es em n\u00edvel regional. Para al\u00e9m das diferen\u00e7as registradas em n\u00edvel bilateral, os efeitos da Primavera \u00c1rabe diante de Estados que historicamente influenciaram os movimentos de constitui\u00e7\u00e3o de um sistema regional (S\u00edria e Egito) atribu\u00edram \u00e0s monarquias do Golfo, incluindo os sauditas, um maior peso na concerta\u00e7\u00e3o das principais quest\u00f5es que ultrapassam as dimens\u00f5es nacionais. Nesse sentido, quest\u00f5es como os controversos relacionamentos com Israel, as expl\u00edcitas diverg\u00eancias com rela\u00e7\u00e3o ao Ir\u00e3 e os desafios sist\u00eamicos diante de processos como a rivalidade China e EUA imp\u00f5em a tais Estados um papel relevante dentro da reorganiza\u00e7\u00e3o regional. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>O Drag\u00e3o Chin\u00eas entre os Falc\u00f5es Verdes e o Gigante Persa<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No interior de uma regi\u00e3o influenciada diretamente pelos EUA desde pelo menos os anos 1970, a movimenta\u00e7\u00e3o chinesa exp\u00f5e uma tend\u00eancia importante na Geopol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio. Apesar de n\u00e3o ter perdido completamente a capacidade de incis\u00e3o sobre alguns dos principais atores, a exemplo de Israel e da pr\u00f3pria Ar\u00e1bia Saudita, a presen\u00e7a estadunidense na regi\u00e3o parece sofrer de um decl\u00ednio, acompanhando a tend\u00eancia sist\u00eamica de corros\u00e3o da sua hegemonia global. Al\u00e9m de epis\u00f3dios recentes como o fracasso da estrat\u00e9gia Ocidental na S\u00edria, a sobreviv\u00eancia iraniana em meio \u00e0s crescentes san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e a retirada das tropas no Afeganist\u00e3o, o acordo entre Ar\u00e1bia Saudita e Ir\u00e3 exp\u00f5e o aprofundamento de uma tend\u00eancia de diversifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es externas dos mais fi\u00e9is aliados de Washington na regi\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Esse movimento se iniciou ainda na primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo. Entre os \u00e1rabes, pa\u00edses como o Egito j\u00e1 evidenciavam o interesse de estabelecer novas perspectivas quanto \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o internacional desde os \u00faltimos anos do Governo Mubarak, ensaiando uma aproxima\u00e7\u00e3o com diversos atores emergentes, inclusive Brasil e China. Tal tend\u00eancia sobreviveu aos tortuosos ventos da Revolu\u00e7\u00e3o e da Contrarrevolu\u00e7\u00e3o no Egito, inspirando novos componentes complexos no relacionamento externo daquele que foi uma das principais conquistas da pol\u00edtica estadunidense para a Regi\u00e3o. No caso saudita, tal processo tamb\u00e9m remonta ao menos duas d\u00e9cadas atr\u00e1s. Assumindo a condi\u00e7\u00e3o de um dos potenciais atores capazes de liderar um processo de reconstru\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o ap\u00f3s o fim da hegemonia do Egito nos anos 1960, Riad transitou entre a manuten\u00e7\u00e3o de seus la\u00e7os com os EUA numa perspectiva securit\u00e1ria e alguns ensaios de aproxima\u00e7\u00e3o com outros atores, sobretudo os pa\u00edses em desenvolvimento. Em rela\u00e7\u00e3o a China, as rela\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas remontam ao menos o final dos anos 1990, num movimento de crescente aproxima\u00e7\u00e3o a partir de interesses comerciais, como o fornecimento de petr\u00f3leo saudita para Pequim. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A presen\u00e7a chinesa em meio a dois antigos rivais exp\u00f5e as dificuldades estadunidenses em refor\u00e7ar sua presen\u00e7a regional. No contexto da Guerra da Ucr\u00e2nia, os esfor\u00e7os do governo Biden em afastar a R\u00fassia da Regi\u00e3o se mostraram frustrados, inclusive na Ar\u00e1bia Saudita e tamb\u00e9m no Egito. Longe de afirmar que isso representa uma guinada dos principais Estados da Regi\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a estrat\u00e9gica com Pequim e Moscou, superando a influ\u00eancia dos EUA, os \u00faltimos eventos evidenciam as complexidades envolvendo o xadrez geopol\u00edtico do Oriente M\u00e9dio, em sintonia com um quadro de transforma\u00e7\u00e3o no sistema mundial.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Um Novo Sistema Oriente M\u00e9dio?<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em l\u00edngua portuguesa, estudos como o de Silvia Ferabolli em <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do Mundo \u00c1rabe<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"> chamam aten\u00e7\u00e3o para os esfor\u00e7os estadunidenses ao longo dos anos 1990 em construir um subsistema regional que, diante do fracasso dos projetos de integra\u00e7\u00e3o e estabiliza\u00e7\u00e3o do mundo \u00e1rabe, inclu\u00edssem outros atores \u00e0 margem de tal fronteira cultural, a exemplo de Israel. Ainda que tal projeto n\u00e3o tenha possu\u00eddo \u00eaxito, as suscet\u00edveis press\u00f5es sist\u00eamicas evidenciaram o fracasso dos atores regionais em construir um projeto de inser\u00e7\u00e3o coletiva aut\u00f4noma, em que pese o relativo \u00eaxito de determinados movimentos de diversifica\u00e7\u00e3o individual.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Diante da iniciativa chinesa na costura de uma aproxima\u00e7\u00e3o entre Sauditas e Iranianos, uma ambiciosa quest\u00e3o a ser colocada \u00e9 se estamos diante de uma a\u00e7\u00e3o que se pode direcionar para a forma\u00e7\u00e3o de um novo sistema regional? Como toda an\u00e1lise contempor\u00e2nea a um determinado fato, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dimensionar com precis\u00e3o o alcance e a efetividade de tal acordo. Contudo, a vit\u00f3ria chinesa no Golfo P\u00e9rsico salienta a capacidade de sua diplomacia em incidir sobre um conturbado relacionamento, apresentando uma perspectiva distinta daquela que predominou sob a lideran\u00e7a estadunidense na regi\u00e3o. No velho bord\u00e3o, \u00e9 preciso aguardar as cenas dos pr\u00f3ximos cap\u00edtulos. Cap\u00edtulos esses de uma narrativa que parece estar longe de um ponto final s\u00f3lido.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Mateus Santos \u00e9 pesquisador do LabGRIMA e doutorando em Hist\u00f3ria\/UFPEL<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tema da vez no Oriente M\u00e9dio \u00e9 o restabelecimento de rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre Riad e Teer\u00e3. Sob a media\u00e7\u00e3o chinesa, antigos advers\u00e1rios regionais deram um relevante passo no intuito de uma poss\u00edvel estabiliza\u00e7\u00e3o do Golfo P\u00e9rsico, sendo poss\u00edvel aspirar consequ\u00eancias que atravessam as fronteiras dessa estrat\u00e9gica regi\u00e3o petrol\u00edfera.<\/p><p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2023\/03\/16\/novos-ventos-no-oriente-medio-a-china-e-o-restabelecimento-de-relacoes-entre-arabia-saudita-e-ira-by-mateus-santos\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":636,"featured_media":1069,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[75,21,1],"tags":[5,4,26,45,47,30],"class_list":["post-1228","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-expert-opinions","category-labgrima-expert","category-noticias","tag-china","tag-geopolitica","tag-geopolitics","tag-middle-west","tag-new-order","tag-us-china-rivalry","nodate","item-wrap"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/files\/2022\/05\/randy-fath-G1yhU1Ej-9A-unsplash.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/users\/636"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1228"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1228\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1230,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1228\/revisions\/1230"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1069"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}