{"id":102,"date":"2019-06-05T13:51:15","date_gmt":"2019-06-05T16:51:15","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/?p=102"},"modified":"2019-06-05T13:54:17","modified_gmt":"2019-06-05T16:54:17","slug":"e-assim-que-a-china-quer-dominar-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/2019\/06\/05\/e-assim-que-a-china-quer-dominar-o-mundo\/","title":{"rendered":"\u00c9 assim que a China quer dominar o mundo"},"content":{"rendered":"<article class=\"articulo articulo--nointro\">\n<div id=\"articulo_interior\" class=\"articulo__interior\">\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p class=\"articulo-subtitulo\">O presidente chin\u00eas, Xi Jinping, deseja que Pequim ocupe o v\u00e1cuo geopol\u00edtico deixado pelos EUA. Seus investimentos em diplomacia, armamentos e intelig\u00eancia artificial s\u00e3o prova disso<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEsconder a for\u00e7a e aguardar o momento.\u201d\u00a0Deng Xiaoping, o grande protagonista da abertura econ\u00f4mica chinesa, recomendava manter a\u00a0China\u00a0em segundo plano no cen\u00e1rio global, enquanto o pa\u00eds lutava para sair da pobreza e deixar para tr\u00e1s o marasmo de 10 anos de\u00a0Revolu\u00e7\u00e3o Cultural. Mas essa etapa ficou no passado. Na \u201cnova era\u201d proclamada pelo presidente\u00a0Xi Jinping, o gigante asi\u00e1tico est\u00e1 decidido a ocupar o papel de protagonista da arena global, que, aos seus olhos, a hist\u00f3ria lhe deve. Atrav\u00e9s de Xi, o l\u00edder mais poderoso do pa\u00eds em d\u00e9cadas e que continuar\u00e1 no poder al\u00e9m dos 10 anos inicialmente previstos, a na\u00e7\u00e3o quer moldar a ordem mundial para se consolidar como referente e criar oportunidades estrat\u00e9gicas para si e suas empresas, al\u00e9m de legitimar seu sistema de governo. E j\u00e1 n\u00e3o hesita em divulgar esses planos.<\/p>\n<p>\u201cNunca o mundo teve tanto interesse na China, nem precisou tanto dela\u201d, declarava solenemente no m\u00eas passado o\u00a0<em>Jornal do Povo<\/em>, o mais oficial das publica\u00e7\u00f5es oficiais de\u00a0Pequim. E o atual momento \u2013 em que os\u00a0Estados Unidos presididos por\u00a0Donald Trump\u00a0abrem m\u00e3o de seu papel de l\u00edder global, a Europa est\u00e1 presa em suas pr\u00f3prias divis\u00f5es e o mundo ainda arrasta as consequ\u00eancias da\u00a0crise financeira de 2008\u00a0\u2013 apresenta uma \u201coportunidade hist\u00f3rica\u201d que, segundo o coment\u00e1rio, \u201cabre-nos um enorme espa\u00e7o estrat\u00e9gico para manter a paz e o desenvolvimento e ganhar vantagem\u201d. A assinatura como \u201cManifesto\u201d indicava que o texto representava a opini\u00e3o dos mais altos dirigentes do Partido.<\/p>\n<p>Essa ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova: a cat\u00e1strofe que significou o\u00a0Grande Salto Adiante(1958-1962) foi provocada, no fim das contas, pela vontade de\u00a0M\u00e3o Ts\u00e9-Tung\u00a0de transformar a China numa pot\u00eancia industrial em tempo recorde. A novidade, de fato, \u00e9 que isso seja agora proclamado \u2013 e cada vez mais alto. Em seu discurso no\u00a0XIX Congresso Nacional do Partido Comunista, em outubro, quando renovou seu mandato por outros cinco anos, Xi anunciou a meta de transformar o pa\u00eds \u201cnum l\u00edder global em termos de fortaleza nacional e a influ\u00eancia internacional\u201d at\u00e9 2050. A data n\u00e3o \u00e9 casual: at\u00e9 l\u00e1, a China j\u00e1 ter\u00e1 esgotado seu dividendo demogr\u00e1fico (hoje a estrutura et\u00e1ria de sua m\u00e3o de obra, ainda relativamente jovem, \u00e9 ben\u00e9fica para o crescimento econ\u00f4mico do pa\u00eds).<\/p>\n<p>Aos olhos de Pequim, a China nunca teve esse objetivo t\u00e3o ao seu alcance. A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 pautada apenas pelas circunst\u00e2ncias geopol\u00edticas ou por seu auge econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m por sua situa\u00e7\u00e3o interna. Nunca, desde os tempos de Mao, um l\u00edder chin\u00eas havia contado com tanto poder, nem tinha se sentido t\u00e3o seguro no cargo.<\/p>\n<p>Xi n\u00e3o deixa de acumular postos e t\u00edtulos, oficiais e extraoficiais. Secret\u00e1rio-geral do Partido, presidente da Comiss\u00e3o Militar Central, chefe de Estado, \u201cn\u00facleo\u201d do Partido e agora\u00a0<em>lingxiu<\/em>, o l\u00edder, um tratamento que s\u00f3 havia sido concedido a M\u00e3o e ao seu sucessor imediato,\u00a0Hua Guofeng. Universidades do pa\u00eds inteiro abrem centros de estudo dedicados ao seu pensamento; as ruas de qualquer cidade est\u00e3o cheias de cartazes pedindo que a popula\u00e7\u00e3o aplique suas ideias. De uma forma marcante, n\u00e3o vista em d\u00e9cadas, a lealdade ao Partido, e em consequ\u00eancia a Xi, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o essencial para se ter sucesso em qualquer atividade que tenha a ver com o onipotente Estado.<\/p>\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o do poder de Xi vai ser coroada na sess\u00e3o anual da Assembleia Nacional Popular, o Legislativo chin\u00eas, que ser\u00e1 inaugurada na pr\u00f3xima semana no Grande Pal\u00e1cio do Povo de Pequim. Os deputados aprovar\u00e3o, entre outras coisas, a elimina\u00e7\u00e3o do limite tempor\u00e1rio de dois mandatos que a Constitui\u00e7\u00e3o imp\u00f5e ao presidente, abrindo caminho para que o mandat\u00e1rio continue \u00e0 frente do pa\u00eds por tempo indefinido.<\/p>\n<p>A China multiplicou sua expans\u00e3o internacional j\u00e1 durante o primeiro mandato de Xi. Seu\u00a0Banco Asi\u00e1tico de Investimento em Infraestrutura\u00a0completar\u00e1 tr\u00eas anos concedendo empr\u00e9stimos equivalentes a mais de 13,4 bilh\u00f5es de reais. Sua nova\u00a0Rota da Seda\u00a0\u2013 um plano para construir uma rede de infraestrutura ao redor do mundo \u2013 acaba de incorporar oficialmente a Am\u00e9rica Latina, mira o \u00c1rtico e se disp\u00f5e e realizar sua segunda reuni\u00e3o internacional em 2019. Seus investimentos em diplomacia t\u00eam sido vastos. Em 2017, o pa\u00eds destinou a essa \u00e1rea o equivalente a 25,5 bilh\u00f5es de reais, um aumento de 60% em rela\u00e7\u00e3o a 2013. J\u00e1 os EUA propuseram cortar 30% das despesas com o servi\u00e7o exterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-105 aligncenter\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/files\/2019\/06\/1519993755_786257_1519994798_sumario_normal_recorte1-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/files\/2019\/06\/1519993755_786257_1519994798_sumario_normal_recorte1-400x267.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/files\/2019\/06\/1519993755_786257_1519994798_sumario_normal_recorte1-768x512.jpg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/files\/2019\/06\/1519993755_786257_1519994798_sumario_normal_recorte1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/labgrima\/files\/2019\/06\/1519993755_786257_1519994798_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto\u00a0Washington\u00a0abandona seus compromissos internacionais, a China est\u00e1 disposta a preencher esse vazio. Xi Jinping se apresentou como o grande defensor da\u00a0globaliza\u00e7\u00e3o, da luta contra a\u00a0mudan\u00e7a clim\u00e1tica, dos tratados de com\u00e9rcio internacionais. Pequim j\u00e1 mant\u00e9m acordos de livre com\u00e9rcio com 21 pa\u00edses \u2013 um a mais que Washington \u2013 e, segundo suas autoridades, negocia ou planeja incluir outros 10.<\/p>\n<p>Os investimentos do Governo e das empresas da China e no exterior s\u00e3o um dos principais pilares dessa estrat\u00e9gia. Na Am\u00e9rica Latina, o pa\u00eds j\u00e1 concedeu mais cr\u00e9ditos que o\u00a0Banco Interamericano de Desenvolvimento\u00a0(BID). Ano passado, investiu o equivalente a 390 bilh\u00f5es de reais em 6.236 empresas de 174 pa\u00edses, segundo seu Minist\u00e9rio do Com\u00e9rcio. Como parte do plano de se tornar um pa\u00eds l\u00edder em tecnologia e fazer com que esse setor seja uma das principais fontes de seu PIB, a China comprou empresas fundamentais em \u00e1reas estrat\u00e9gicas, como a l\u00edder alem\u00e3 em rob\u00f3tica Kuka e a fabricante de chips brit\u00e2nica Imagination. J\u00e1 \u00e9 um referente em\u00a0intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Mas sua presen\u00e7a no exterior n\u00e3o se limita ao terreno diplom\u00e1tico e comercial. Ser uma pot\u00eancia global requer n\u00e3o apenas ter acesso aos recursos e conex\u00f5es com o resto do mundo, mas tamb\u00e9m defend\u00ea-los e se defender. E a China, com o equivalente a 490 bilh\u00f5es de reais, \u00e9 o segundo pa\u00eds com maior\u00a0gasto militar, atr\u00e1s dos EUA, e moderniza rapidamente seu Ex\u00e9rcito. J\u00e1 conta com sua primeira base militar no exterior, em\u00a0Djibuti, e, segundo o\u00a0Afeganist\u00e3o, estuda construir uma segunda base num canto remoto desse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas se a China hoje inspira mais simpatia que os EUA em diversos pa\u00edses \u2013 incluindo aliados tradicionais de Washington, como\u00a0M\u00e9xico\u00a0e\u00a0Holanda, segundo informou o Pew Research Center em 2017 \u2013, seu auge tamb\u00e9m gera desconfian\u00e7a. O Eurasia Group descreveu a influ\u00eancia chinesa em meio a um vazio de lideran\u00e7a global como o primeiro risco geopol\u00edtico para este ano. \u201c[A China] est\u00e1 fixando padr\u00f5es internacionais com a menor resist\u00eancia j\u00e1 vista\u201d, afirma a consultoria. \u201cO \u00fanico valor pol\u00edtico que a China exporta \u00e9 o princ\u00edpio de n\u00e3o inger\u00eancia nos assuntos internos de outros pa\u00edses. Isso \u00e9 atrativo para os Governos, acostumados \u00e0s exig\u00eancias ocidentais de reformas pol\u00edticas e econ\u00f4micas em troca de ajuda financeira.\u201d Men\u00e7\u00e3o especial, entre outras coisas, merece o investimento chin\u00eas em intelig\u00eancia artificial. \u201c[Esse investimento] procede do Estado, que se alinha com as institui\u00e7\u00f5es e companhias mais poderosas do pa\u00eds e trabalha para garantir que a popula\u00e7\u00e3o se comporte como o Estado deseja. \u00c9 uma for\u00e7a estabilizadora para o Governo autorit\u00e1rio e capitalista do Estado chin\u00eas. Outros Governos achar\u00e3o esse modelo sedutor.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_3|foto\" class=\"sumario_foto centro\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">Outras vozes tamb\u00e9m demonstram alarme. O primeiro-ministro australiano, Malcom Turnbull, denunciou em dezembro a influ\u00eancia da China nos assuntos pol\u00edticos de seu pa\u00eds, mediante\u00a0<em>lobbies<\/em>\u00a0e doa\u00e7\u00f5es, e apresentou um projeto de lei que busca frear isso. O diretor do FBI, a pol\u00edcia federal dos EUA,\u00a0Christopher Wray, tamb\u00e9m advertiu que Pequim pode ter infiltrado agentes at\u00e9 mesmo nas universidades. Um relat\u00f3rio do\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0alem\u00e3o MERICS e do Global Public Policy Institute alerta para a crescente penetra\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia pol\u00edtica da China na Europa, especialmente nos pa\u00edses do Leste. E um grupo de acad\u00eamicos conseguiu, gra\u00e7as aos protestos do ano passado, que a editora Cambridge University Press restabelecesse artigos censurados por n\u00e3o coincidirem com a vis\u00e3o do governo chin\u00eas em assuntos como\u00a0Tiananmen\u00a0e\u00a0Tibete.<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>A crescente assertividade de Pequim pode beirar a arrog\u00e2ncia ou o desd\u00e9m pelas normas internacionais. No mar do Sul da China, onde suas reivindica\u00e7\u00f5es de soberania enfrentam as de outras cinco na\u00e7\u00f5es, o pa\u00eds tem constru\u00eddo ilhas artificiais em \u00e1reas em disputa, apesar dos protestos dos Estados vizinhos e dos EUA. Recentemente, a imprensa recriminou a\u00a0Su\u00e9cia\u00a0por suas press\u00f5es pela liberta\u00e7\u00e3o de\u00a0Gui Minhai, o livreiro sueco detido no m\u00eas passado quando viajava a Pequim escoltado por dois diplomatas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos alarmes, come\u00e7am a soar tamb\u00e9m \u2013 de modo ainda muito incipiente \u2013 propostas para contra-atacar essa pujan\u00e7a ou os aspectos menos benevolentes dela. O presidente franc\u00eas,\u00a0Emmanuel Macron, pediu a unidade dos 27 parceiros da Uni\u00e3o Europeia para n\u00e3o perderem terreno para a China. A Casa Branca come\u00e7ou a impor tarifas a alguns produtos para frear o que considera concorr\u00eancia desleal da China no interc\u00e2mbio comercial.\u00a0Jap\u00e3o, \u00cdndia, Austr\u00e1lia e EUA estudam apresentar um plano internacional alternativo ao da Rota da Seda.<\/p>\n<p>Claro que nem sequer o todo-poderoso Xi pode considerar tudo como garantido, e a China da nova era padece de fraquezas importantes. No momento, o apoio popular ao presidente e sua gest\u00e3o parece s\u00f3lido. Mas mant\u00ea-lo, em uma sociedade de fortes desigualdades sociais, pode ser uma tarefa complicada. As jovens classes m\u00e9dias, nascidas e criadas depois da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural e de Mao, n\u00e3o conheceram o sofrimento de seus progenitores e demandam um bem-estar econ\u00f4mico que d\u00e3o como certo, assim como padr\u00f5es de vida semelhantes aos do Ocidente.<\/p>\n<p>Isto inclui a\u00a0polui\u00e7\u00e3o, um dos grandes males da China. Depois de medidas como um plano de urg\u00eancia para o inverno, padr\u00f5es de emiss\u00f5es para ve\u00edculos e fechamento de f\u00e1bricas com elevados n\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o, este ano a qualidade do ar em Pequim melhorou notavelmente. Mas organiza\u00e7\u00f5es como o\u00a0Greenpeace enfatizam que essa melhora se deu, em parte, ao custo de transferir a polui\u00e7\u00e3o para regi\u00f5es mais pobres e menos vis\u00edveis.<\/p>\n<p>Garantir padr\u00f5es de vida cada vez melhores \u2013 a China se comprometeu a acabar at\u00e9 2020 com a\u00a0pobreza rural, que em 2015 afetava 55 milh\u00f5es de pessoas \u2013 obriga tamb\u00e9m a uma reforma econ\u00f4mica. Ao chegar ao poder, h\u00e1 cinco anos, Xi prometeu deixar que o mercado seguisse seu ritmo. \u00c9 uma aspira\u00e7\u00e3o que se mostrou complicada. Em 2015, a revista\u00a0<em>Caixin<\/em>\u00a0indicava que, entre as 113 \u00e1reas suscet\u00edveis de reforma, somente 23 avan\u00e7avam a bom ritmo, os progressos eram lentos em 84 e nada se conseguira em 16.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 por fazer \u00e9 o mais dif\u00edcil: as empresas de propriedade estatal, gigantescas e ineficientes, mas b\u00e1sicas no sistema socioecon\u00f4mico chin\u00eas atual; o excesso de cr\u00e9dito e de capacidade de produ\u00e7\u00e3o; a completa liberaliza\u00e7\u00e3o do yuan. Reformas necess\u00e1rias, mas que v\u00e3o requerer enorme habilidade para que n\u00e3o prejudiquem o \u00edndice de desemprego ou a estabilidade social, a grande prioridade do Governo.<\/p>\n<p>Em prol dessa estabilidade social, a China de Xi Jinping p\u00f4s em pr\u00e1tica ambiciosos programas de\u00a0controle e vigil\u00e2ncia dos cidad\u00e3os, ajudada pela intelig\u00eancia artificial. O fluxo das informa\u00e7\u00f5es e as redes sociais s\u00e3o ferreamente supervisionados. Todas as empresas, incluindo as multinacionais estrangeiras, precisam contar com uma unidade do Partido Comunista em sua estrutura. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o estatais \u2013 os principais\u00a0 \u2013 receberam instru\u00e7\u00f5es da boca do pr\u00f3prio presidente: \u201cVoc\u00eas devem se nomear Partido\u201d.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 a de redu\u00e7\u00e3o da toler\u00e2ncia a qualquer manifesta\u00e7\u00e3o cultural que n\u00e3o reforce o papel dominante do Partido Comunista nem se ponha a servi\u00e7o de seus objetivos. E isso inclui o\u00a0tratamento \u00e0s minorias e a pr\u00e1tica da religi\u00e3o, sobre a qual recentemente foram impostos novos regulamentos. As pessoas inc\u00f4modas \u2013 sejam dissidentes pol\u00edticos, advogados de direitos humanos ou ativistas de causas sociais\u2013 s\u00e3o presas e, \u00e0s vezes, condenadas a longas penas de pris\u00e3o. No ano passado, o\u00a0Pr\u00eamio Nobel da Paz Liu Xiaobo\u00a0morreu de c\u00e2ncer de f\u00edgado enquanto cumpria uma pena de 11 anos.<\/p>\n<p>Mas o tempo corre, para Xi, para Pequim e para implementar as reformas. Um dos grandes obst\u00e1culos que o pa\u00eds enfrenta \u00e9 precisamente seu r\u00e1pido\u00a0envelhecimento. A desastrosa\u00a0pol\u00edtica do filho \u00fanico\u00a0faz com que o dividendo demogr\u00e1fico esteja se esgotando. Apesar do fim da proibi\u00e7\u00e3o em 2015, a natalidade n\u00e3o d\u00e1 mostras de aumentar. Em 2020, 42 milh\u00f5es de idosos n\u00e3o poder\u00e3o cuidar de si mesmos e 29 milh\u00f5es superar\u00e3o os 80 anos. Um grande desafio para sistemas de previd\u00eancia social e de sa\u00fade ainda muito fr\u00e1geis.<\/p>\n<p>Para 2050, quando o pa\u00eds espera ter se tornado uma grande pot\u00eancia, contar\u00e1 com 400 milh\u00f5es de aposentados. Por essa \u00e9poca, ter\u00e1 completado seus ambiciosos planos de reforma militar e econ\u00f4mica; a prioridade ser\u00e1 atender a esse grande segmento de popula\u00e7\u00e3o envelhecida. O prazo de \u201coportunidade estrat\u00e9gica\u201d ter\u00e1 expirado.<\/p>\n<p>A nova era de Xi tem, portanto, pressa. Hoje pode mobilizar a popula\u00e7\u00e3o em busca do sonho chin\u00eas; amanh\u00e3 poder\u00e1 ser tarde. Dentro de alguns anos, esta nova era pode ter ficado velha demais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/03\/02\/internacional\/1519993755_786257.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente chin\u00eas, Xi Jinping, deseja que Pequim ocupe o v\u00e1cuo geopol\u00edtico deixado pelos EUA. 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