Uma história de ensino iniciada em 1966, formalizada em 1981, reconhecida em 2004 e construída por gerações.
Pelotas (RS) – Há histórias que começam quando uma porta se abre. Outras começam muito antes, quando alguém imagina o que ainda não existe. A história do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel) começou com o desejo de criar em Pelotas uma Faculdade de Medicina e com a compreensão de que formar médicos exigia mais do que salas de aula. Era preciso um lugar onde o conhecimento encontrasse a prática, onde estudantes aprendessem junto aos pacientes e onde a Universidade participasse da construção do cuidado em saúde. Antes dos leitos, das enfermarias, das equipes e da sede própria, havia uma ideia que mobilizou pessoas e atravessou anos até encontrar seu lugar.
Em 1966, nas dependências da Sociedade Portuguesa de Beneficência de Pelotas, essa ideia ganhou vida. O Hospital Escola começou a funcionar, dando resposta a uma necessidade construída ao longo de mais de uma década. Nascia ali uma história feita de ensino, assistência e compromisso com a saúde pública, que seguiria crescendo com a participação de muitas gerações. O Hospital Escola começava a existir de FATO. O reconhecimento de DIREITO viria mais tarde.
Antes do Hospital, o sonho da Medicina
Na década de 1950, Pelotas construía as bases para ter sua própria Faculdade de Medicina. A formação dependia de instituições de outras cidades, enquanto médicos, professores e lideranças locais trabalhavam para criar uma escola médica na região.
Em 1953, o médico Franklin Olivé Leite, primeiro presidente da Sociedade de Medicina de Pelotas, propôs a criação da Faculdade de Medicina. A ideia reuniu outros profissionais e lideranças, entre eles Bruno de Mendonça Lima, Paulo Osório, Orlando Corrêa de Azevedo, Cyro Tavares e Vicente Martins Gervini. O projeto ganhou dimensão de cidade e de região, reunindo formação profissional, ensino superior e produção de conhecimento em saúde.
Em 8 de maio de 1954, a Instituição Pró-Ensino Superior no Sul do Estado (IPESSE), presidida por Franklin Olivé Leite, passou a coordenar esse movimento. No ano seguinte, recebeu em doação o antigo prédio do Instituto de Higiene Borges de Medeiros. Entre as lideranças que se somaram à mobilização estava Naum Keisermann, que defendeu uma Faculdade de Medicina leiga, vinculada a um projeto de ensino capaz de, no futuro, integrar a estrutura pública federal.
O caminho ganhava forma. A autorização para o funcionamento da Faculdade de Medicina chegou em 3 de abril de 1963. Com ela, cresceu a necessidade de um campo hospitalar para as atividades práticas dos estudantes. Naquele ano, a Faculdade contratou a empresa Valdetaro e Nadalluti, do Rio de Janeiro, para elaborar um projeto de hospital. A proposta aguardou recursos para avançar. Após negociações com diferentes instituições, a parceria com a Sociedade Portuguesa de Beneficência abriu o caminho possível. E foi ali que o Hospital começou a ganhar forma.
Nasce o Hospital Escola
Em 1966, nas dependências da Sociedade Portuguesa de Beneficência, começou a funcionar o Hospital Escola. A estrutura contava com cerca de 30 leitos, distribuídos em quatro enfermarias, além de laboratórios, salas de aula, consultórios e espaço para pequenas cirurgias. Os estudantes passaram a aprender junto aos pacientes, acompanhados por seus professores.
Era uma estrutura pequena diante do Hospital que viria a existir. Já estava presente, porém, aquilo que permaneceria como essência da instituição: ensinar cuidando e cuidar ensinando. Por isso, 1966 ocupa um lugar especial nessa história. Foi quando o Hospital Escola passou a reunir assistência e ensino em um mesmo espaço.
Nos anos seguintes, essa trajetória acompanhou a expansão da própria formação em saúde em Pelotas. Em 1968, a Faculdade de Medicina formou sua primeira turma. Em 1969, com a criação da UFPel, a Faculdade foi incorporada à nova Universidade. A federalização, em 1978, consolidou um projeto defendido desde a década de 1950.
Também chegaram novos saberes. Em 1976, a enfermeira Hildete Bahia da Luz veio a Pelotas para organizar o Curso de Enfermagem e Obstetrícia, a convite de Naum Keisermann e Kurt Kloetzel, ao lado de profissionais como Helena Maria da Rocha Conceição. A Nutrição, criada na década de 1970 e inicialmente vinculada à Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel, também passou posteriormente à estrutura da Faculdade de Medicina. O Hospital ampliava seu papel como espaço de formação em saúde.
O Hospital ganha corpo e uma nova casa
Um dos marcos dessa transformação ocorreu em 1981. A ampliação do convênio com a Sociedade Portuguesa de Beneficência elevou a capacidade do Hospital de aproximadamente 30 para 117 leitos. Clínica Médica, Cirurgia, Ginecologia e Obstetrícia, Pediatria e Pronto-Socorro passaram a compor uma estrutura assistencial mais ampla.
No mesmo ano, foi criada a Fundação de Apoio Universitário (FAU), que passou a desempenhar papel importante na organização financeira e operacional das atividades hospitalares. O crescimento trouxe novas responsabilidades e uma estrutura cada vez mais complexa para manter equipes, serviços, medicamentos e materiais. Foi neste ano sua criação de DIREITO.
Em 1987, após duas décadas na Sociedade Portuguesa de Beneficência, o Hospital Escola mudou de endereço e passou a funcionar no prédio anexo à Santa Casa de Misericórdia de Pelotas. A nova estrutura permitiu reorganizar os serviços e, nos anos seguintes, reformas e adequações transformaram o prédio em cenário de diferentes gerações de pacientes, estudantes e profissionais.
Foi nessa casa que o Hospital permaneceu durante décadas, incorporando serviços, formando profissionais e atravessando períodos de mudança. Vieram novas tecnologias, residências, pesquisas e serviços especializados. Vieram também crises financeiras, dificuldades de infraestrutura, problemas de pessoal e questionamentos sobre os modelos de gestão. E vieram respostas.
Do Hospital Escola ao Hospital de Ensino
Em 1988, a nova Constituição Federal reconheceu a saúde como direito de todos e dever do Estado. Dois anos depois, as Leis nº 8.080 e nº 8.142 regulamentaram o Sistema Único de Saúde (SUS). O Hospital Escola passou a integrar uma nova concepção de saúde pública, inserindo sua assistência em uma rede pública de cuidado.
Ao longo da década de 1990, novos serviços foram incorporados. O diagnóstico por imagem ganhou espaço com a instalação de um mamógrafo, o Hospital-Dia foi estruturado e o Serviço de Assistência Especializada passou a atender pessoas vivendo com HIV e outras demandas relacionadas.
Durante décadas, o Hospital ensinou, formou residentes, acompanhou pacientes e incorporou novas profissões ao cuidado. Em 2004, essa vocação ganhou reconhecimento formal. Naquele ano, o Hospital Escola recebeu a certificação dos Ministérios da Educação e da Saúde como Hospital de Ensino, por meio da Portaria Interministerial nº 1.000/2004. Era o reconhecimento institucional de uma prática construída desde 1966.
No mesmo ano, o Hospital aprofundou sua integração com o SUS. Em dezembro de 2004, foi firmado convênio entre o Município de Pelotas, o Hospital Escola, a UFPel e a FAU, estabelecendo novas bases para a inserção da instituição na rede SUS. A expressão Hospital Escola passava a representar também uma identidade institucional.
Entre mudanças e reinvenções
A década seguinte trouxe mudanças importantes. O Hospital enfrentou dificuldades financeiras e estruturais, questionamentos de órgãos de controle e desafios relacionados à força de trabalho. A relação entre a UFPel e a FAU passou por análises e auditorias. Nesse período, a instituição manteve a assistência e respondeu a novas demandas.
Em 2009, o Hospital passou a integrar a Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), ampliando as possibilidades de discussão de casos, teleconsultorias e educação em saúde. Em 2010, registrava 66 médicos residentes, residência multiprofissional em Atenção à Saúde Oncológica e 42 pesquisas vinculadas à instituição. Ensino, assistência e pesquisa seguiam presentes na rotina do Hospital, enquanto a necessidade de uma estrutura própria permanecia no horizonte.
Em 2011, a UFPel lançou oficialmente o projeto do novo Hospital Escola. A proposta inicial previa um complexo de grande porte. Em 2012, começaram os primeiros trabalhos para a construção do futuro hospital, mas o projeto passou por revisões e a execução avançou em outro ritmo. Também em 2012, a UFPel aprovou a adesão à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh, atual HU Brasil), criada pela Lei nº 12.550/2011. Em 30 de outubro de 2014, UFPel e HU Brasil assinaram o contrato de gestão. Em 2017, a empresa passou a exercer efetivamente a gestão plena da instituição.
A mudança abriu um novo ciclo de planejamento. Serviços foram redimensionados, o quadro de pessoal reorganizado, novos investimentos planejados e o projeto da sede própria retomado a partir de outra realidade. E, em 2016, começou a construção do Bloco 3. Com 4.470 m², o prédio foi concluído em 6 de outubro de 2020 e passou a reunir serviços como Atenção Domiciliar, Oncologia, Centro de Pesquisas, Centro de Simulação Realística, salas de ensino, auditórios e unidades administrativas.
O Bloco 3 não era o hospital inteiro, mas era o primeiro pedaço concreto de uma nova casa e, por isso, guardava um significado especial na história desse sonho. A sede própria ainda era uma construção em curso, primeiro no papel, depois no terreno. Com o Bloco 3, pela primeira vez, o sonho podia ser visto, ocupado e vivido. Aquilo que tantas gerações imaginaram começava, enfim, a fazer parte do cotidiano.
Um Hospital preparado para outros desafios
Em 2019, o Serviço de Radioterapia foi reaberto com um acelerador linear. No ano seguinte, a pandemia de Covid-19 exigiu uma nova organização dos espaços e da assistência. Uma ala exclusiva, com 23 leitos, foi destinada aos casos de Covid-19. Nesse período, o Centro de Pesquisas Clínicas entrou em funcionamento e a instituição estruturou uma Unidade de Diagnóstico Molecular para a realização de exames RT-PCR e apoio à vigilância epidemiológica.
Em 2021, a unidade ultrapassou 10 mil exames para Covid-19 e passou a atuar também na identificação de variantes do coronavírus. A Oncologia passou a funcionar no Bloco 3. Em 2022, o Hospital inaugurou o Centro de Simulação Realística, com ambientes que reproduzem situações de assistência, como Bloco Cirúrgico, UTI, enfermaria e sala de parto.
O Hospital continuava mudando, e o projeto da sede própria acompanhava esse movimento. A partir de 2022, uma nova mobilização reuniu UFPel, HU Brasil, trabalhadores, estudantes, gestores, parlamentares e representantes da comunidade em torno da construção da sede. O projeto foi redimensionado a partir das necessidades assistenciais e acadêmicas do Hospital e do SUS regional. A comunidade acadêmica também participou da revisão das plantas, apresentando demandas das áreas assistenciais, administrativas e acadêmicas.
Em 2023, a mobilização ganhou nova dimensão com a participação da proposta no Brasil Participativo. A construção da sede própria recebeu 7.408 votos e ficou entre as propostas mais votadas da área da Saúde. Em agosto daquele ano, o Governo Federal anunciou a inclusão da construção dos Blocos 1 e 2 no Novo PAC, com previsão de aproximadamente R$ 265,2 milhões. O sonho mudava de etapa: passava a contar com recursos previstos para se transformar em obra.
Do projeto ao terreno
Em 2024, a sede própria avançou mais uma etapa. Após revisões e adequações, o terceiro certame resultou na escolha do Consórcio Novo Hospital Escola Pelotas. O contrato para a construção dos Blocos 1 e 2 foi celebrado em 12 de dezembro de 2024. Integrada ao Bloco 3, a nova estrutura reunirá internação, centro cirúrgico, centro de parto normal, unidades de terapia intensiva, diagnóstico, ensino e serviços de apoio.
Antes, porém, era preciso liberar o terreno. Para isso, o Ambulatório Central da Faculdade de Medicina foi transferido para o prédio da antiga Laneira Pelotense. Em 2025, o novo espaço passou a receber o Ambulatório Central. No mesmo ano, o canteiro de obras foi implantado e, em 12 de maio, começou a preparação do solo para a construção dos novos blocos do Hospital Escola. A previsão é de 36 meses de execução, com conclusão estimada para 2028. Desta vez, o sonho não estava apenas no papel. Estava no terreno.
O futuro encontra a história
Aos 60 anos, o Hospital Escola começa a ver ganhar forma um sonho que atravessou gerações: a sede própria. Esse momento coincide com outro marco da trajetória da instituição: a Certificação de Hospital de Ensino Nível 1, publicada em 29 de julho de 2026. Concedida no âmbito do novo processo estabelecido pelos Ministérios da Saúde e da Educação, a certificação reconhece o atendimento aos requisitos de integração entre ensino e serviço e de qualificação dos ambientes de prática e aprendizagem.
Há algo de simbólico nesse encontro de datas. Talvez porque uma história nunca caiba em uma única data. Ela vai se revelando aos poucos e, com o passar dos anos, os acontecimentos se ligam, mostrando como cada passo faz parte de um caminho maior. Em 1966, o Hospital Escola começou a funcionar como campo de prática para estudantes. Em 2004, recebeu oficialmente a certificação como Hospital de Ensino. Em 2026, uma nova certificação reafirma essa trajetória. Uma história que começou de FATO e se consolidou de DIREITO.
Parte dessa história está nos lugares que acolheram o Hospital. Primeiro, as enfermarias da Sociedade Portuguesa de Beneficência. Depois, a casa anexa à Santa Casa. Mais tarde, o Bloco 3. Agora, os Blocos 1 e 2 começam a desenhar uma nova etapa. Cada espaço guarda um tempo, uma mudança, uma lembrança. Mas os prédios, por si só, não contam tudo.
A história do Hospital Escola também vive nas pessoas que passaram por esses lugares e ajudaram a construir o que ele é hoje. Está nos estudantes que ali aprenderam; nos professores que compartilharam conhecimento e acompanharam gerações; nos trabalhadores que fizeram o cuidado acontecer diariamente; nos pacientes que confiaram ao Hospital parte de suas histórias; nos pesquisadores que transformaram perguntas em conhecimento; e nas equipes que mantiveram vivo o compromisso de ensinar e cuidar…
É essa soma de pessoas, aprendizagens e cuidados que dá sentido aos 60 anos do Hospital Escola. Nesse percurso, os prédios mudaram, os espaços se transformaram e novas portas se abriram. O Hospital mudou. A cidade mudou. A Universidade mudou. A saúde mudou. A essência, porém, permaneceu.
O Hospital Escola começou com 30 leitos. Cresceu, mudou de endereço, incorporou novas profissões, tecnologias e serviços, fortaleceu sua relação com o SUS e consolidou sua vocação de ensinar e cuidar. O sonho da sede própria atravessou gerações e começa a ganhar forma em uma nova estrutura, construída sobre essa história.
O Hospital Escola começou em 1966. Começou de FATO. Ao longo dessa trajetória, também passou a ser reconhecido de DIREITO. Aos 60 anos, segue olhando para o futuro sem perder de vista as pessoas e os caminhos que o trouxeram até aqui. SEMPRE HE.
Sobre a HU Brasil
O HE-UFPel integra a HU Brasil desde 2014. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.
Gerência-Executiva de Comunicação Social/HU Brasil
Por Andreia Pires – Jornalista – Unidade de Jornalismo HU Brasil
Acima: Maquetes eletrônicas com vistas das fachadas da futura sede do HE. Fonte: Badermann Arquitetos Associados.






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