{"id":956,"date":"2023-06-14T16:38:03","date_gmt":"2023-06-14T19:38:03","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/?p=956"},"modified":"2023-06-14T16:38:03","modified_gmt":"2023-06-14T19:38:03","slug":"a-politica-internacional-para-alem-de-washington-pequim-e-moscou-passado-e-presente-de-luta-por-autonomia-e-influencia-entre-atores-emergentes-por-mateus-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/2023\/06\/14\/a-politica-internacional-para-alem-de-washington-pequim-e-moscou-passado-e-presente-de-luta-por-autonomia-e-influencia-entre-atores-emergentes-por-mateus-santos\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica internacional para al\u00e9m de Washington, Pequim e Moscou: passado e presente de luta por autonomia e influ\u00eancia entre atores emergentes por Mateus Santos"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Estamos diante de uma Nova Guerra Fria? Mobilizada por segmentos da imprensa, intelectuais e acad\u00eamicos, o conceito relativo \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de um conflito multifacetado entre dois sistemas de poder assume alguma import\u00e2ncia na atual conjuntura, tendo como um dos principais planos de fundo a Guerra da Ucr\u00e2nia e sua dimens\u00e3o sist\u00eamica a partir da eleva\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es entre OTAN e R\u00fassia.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><!--more--><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em meio a desordem internacional estimulada pelo avan\u00e7o no decl\u00ednio da hegemonia dos EUA, a amplia\u00e7\u00e3o das incertezas acerca do futuro da pol\u00edtica internacional diante do fracasso do unilateralismo de Washington nas primeiras d\u00e9cadas ap\u00f3s o fim da URSS e dos impasses frente a consolida\u00e7\u00e3o de um mundo eminentemente multipolar se tornam objetos de sedu\u00e7\u00e3o para uma an\u00e1lise comparada atual conjuntura e os tempos do conflito protagonizado por sovi\u00e9ticos e estadunidenses. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Nesse exerc\u00edcio, proponho um caminho alternativo. Ao inv\u00e9s de discutirmos as semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre a atual fase da Crise Sist\u00eamica e as caracter\u00edsticas do que ficou conhecido como Guerra Fria a partir de uma perspectiva centrada nas rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre os sistemas de poder protagonistas no conflito, enfatizaremos o comportamento de atores que, situados em planos inferiores frente \u00e0s disputas globais, buscaram incidir, em maior ou menor medida, nos rumos da pol\u00edtica global. Assim, este curto artigo analisa diferentes movimenta\u00e7\u00f5es de revis\u00e3o da ordem internacional na Guerra Fria do s\u00e9culo XX e naquilo que se convencionou chamar de uma Nova Guerra Fria no S\u00e9culo XXI. Para tal, busca-se avaliar o que foi a experi\u00eancia do N\u00e3o-Alinhamento enquanto um tipo de inser\u00e7\u00e3o internacional de vi\u00e9s autonomista no contexto de afirma\u00e7\u00e3o do Terceiro Mundo, apontando para uma esp\u00e9cie de modelo de estrutura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es externas em contextos de maior acirramento das tens\u00f5es na dire\u00e7\u00e3o de polos de poder relativamente definidos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Os (ditos) N\u00e3o-Alinhados e a evolu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica global no P\u00f3s-Guerra<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na primeira parte da d\u00e9cada de 1950, o franc\u00eas Alfred Sauvy estabeleceu uma curiosa associa\u00e7\u00e3o entre um conjunto de Estados independentes ou em vias de liberta\u00e7\u00e3o nos continentes africano e asi\u00e1tico e a situa\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a Pr\u00e9-Revolucion\u00e1ria. Sob o signo de \u201cTerceiro Mundo\u201d, as semelhan\u00e7as estabelecidas com o chamado Terceiro Estado franc\u00eas assumiam contornos complexos envolvendo a situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o e desprezo, as influ\u00eancias dos outros \u201cmundos\u201d ou atores frente a esse grupo heterog\u00eaneo e o reconhecimento de uma situa\u00e7\u00e3o considerada potencialmente explosiva. Nesse sentido, a proposta de um Terceiro Mundo em <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>Trois Mondes, une plan\u00e8te <\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">adquiria um car\u00e1ter geopol\u00edtico ao estabelecer uma nova dimens\u00e3o na configura\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica internacional que fugia aos limites circunscritos pela Guerra Fria e o enfrentamento dos dois blocos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">As impress\u00f5es de Sauvy abriam novas perspectivas quanto ao olhar sobre o efervescente mundo colonial. Se a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de Terceiro Mundo carregava consigo certa verticaliza\u00e7\u00e3o da arquitetura pol\u00edtica e econ\u00f4mica do globo, sua apropria\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito das transforma\u00e7\u00f5es no sistema mundial a partir dos anos 1950 assumiu relev\u00e2ncia entre seus atores e os muitos autores que problematizaram os desafios contempor\u00e2neos do chamado Sul Global. Carregando consigo as marcas da converg\u00eancia a partir da luta contra o subdesenvolvimento e de uma s\u00e9rie de desafios estimulados pela condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica no capitalismo global, o terceiro-mundismo n\u00e3o evoluiu na dire\u00e7\u00e3o de um \u00fanico modelo de inser\u00e7\u00e3o internacional. Singular em sua escrita, o termo se consolidaria como um marcador difuso de um conjunto heterog\u00eaneo de Estados que, em sua maioria, relacionavam-se de diferentes maneiras com o jogo da Guerra Fria.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Nessa perspectiva, o chamado N\u00e3o-Alinhamento constituiu uma das alternativas de inser\u00e7\u00e3o internacional e, ao mesmo tempo, base de um movimento peculiar de Estados situados majoritariamente no Terceiro Mundo. Na produ\u00e7\u00e3o de uma relativa converg\u00eancia entre diferentes atores situados na \u00c1frica, Europa Oriental, Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia, agendas como descoloniza\u00e7\u00e3o, desarmamento, combate ao racismo, autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos e amplia\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento se tornariam vetores de aproxima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre um coletivo crescente de Estados. As marcas de produ\u00e7\u00e3o de uma sintonia em n\u00edvel transcontinental remontam tamb\u00e9m a outros fatores que antecederam \u00e0 coexist\u00eancia de princ\u00edpios e linhas de a\u00e7\u00e3o relativamente comuns. Na trajet\u00f3ria do N\u00e3o-Alinhamento enquanto vetor de pol\u00edtica externa e base para a forma\u00e7\u00e3o de um movimento, tr\u00eas outros aspectos necessitam de ser considerados: as experi\u00eancias particulares dos Estados na luta contra o colonialismo e as mais diferentes formas de domina\u00e7\u00e3o externa, a produ\u00e7\u00e3o de movimentos de solidariedade transnacional e a constru\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es coletivas na expectativa de uma evolu\u00e7\u00e3o na atua\u00e7\u00e3o externa. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Sob o signo de N\u00e3o-Alinhado, diferentes pa\u00edses encontraram certa identidade para suas pol\u00edticas externas. Aspectos como a posi\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica, as trajet\u00f3rias particulares, a defini\u00e7\u00e3o dos interesses em n\u00edvel regional e global, al\u00e9m da pr\u00f3pria compreens\u00e3o do N\u00e3o-Alinhamento no contexto da Guerra Fria influenciaram no estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es com o movimento e na pr\u00f3pria lapida\u00e7\u00e3o de tal conceito. Egito e Iugosl\u00e1via podem ser tomados como refer\u00eancia para tal quest\u00e3o. Enquanto o pa\u00eds africano encontrou no N\u00e3o-Alinhamento um tipo de inser\u00e7\u00e3o internacional capaz de ampliar suas condi\u00e7\u00f5es de barganha no contexto de escalada lateral da Guerra Fria na dire\u00e7\u00e3o do Mundo \u00c1rabe, um contraponto poss\u00edvel frente \u00e0s caracter\u00edsticas das rela\u00e7\u00f5es exteriores de Estados conservadores na regi\u00e3o e um estilo de Pol\u00edtica Externa compat\u00edvel com os ideais do nacionalismo \u00e1rabe. Como movimento, os N\u00e3o-Alinhados representaram para o pa\u00eds de Nasser a amplia\u00e7\u00e3o dos horizontes de constru\u00e7\u00e3o de um protagonismo eg\u00edpcio nas rela\u00e7\u00f5es exteriores, indo al\u00e9m dos tr\u00eas c\u00edrculos (mu\u00e7ulmano, \u00e1rabe e africano) tra\u00e7ados pelo Coronel eg\u00edpcio.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em rela\u00e7\u00e3o aos iugoslavos, Robert Niebuhr chama aten\u00e7\u00e3o para a natureza estrat\u00e9gica da Pol\u00edtica Externa dentro dos objetivos de sobreviv\u00eancia do pr\u00f3prio regime. Se o N\u00e3o-Alinhamento surge gradativamente como uma consequ\u00eancia do complexo processo de ruptura das rela\u00e7\u00f5es entre Tito e Stalin no final dos anos 1940 e da busca iugoslava por alternativas de inser\u00e7\u00e3o internacional, a Pol\u00edtica Externa tamb\u00e9m se tornou um elemento de solidifica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio regime, diante dos desafios de manuten\u00e7\u00e3o de uma relativa coes\u00e3o de um Estado multinacional e multi\u00e9tnico. Desse ponto de vista, a dimens\u00e3o da experi\u00eancia assume relev\u00e2ncia dentro da defini\u00e7\u00e3o dos prop\u00f3sitos e das expectativas dos ditos N\u00e3o-Alinhados em sua inser\u00e7\u00e3o internacional. Enquanto o Egito manteve, em linhas gerais, maiores condi\u00e7\u00f5es de barganha frente a Moscou e Washington, a Iugosl\u00e1via conviveu com o desafio de afirma\u00e7\u00e3o de sua soberania em meio \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica entre a Cortina de Ferro e a Europa Ocidental, al\u00e9m de representar um desafio ideol\u00f3gico para o Kremlin ao estabelecer uma via particular de socialismo no Leste Europeu. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Al\u00e9m do encontro de trajet\u00f3rias individuais, o N\u00e3o-Alinhamento e os ditos N\u00e3o-Alinhados tamb\u00e9m traduziram uma esp\u00e9cie de s\u00edntese complexa acerca de diferentes movimentos de solidariedade transnacional. No seio da luta contra o colonialismo e na afirma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia supranacional acerca do desafio de enfrentamento das estruturas hist\u00f3ricas de domina\u00e7\u00e3o ocidental, manifesta\u00e7\u00f5es como o chamado afroasianismo desde a primeira metade do s\u00e9culo XX e a coexist\u00eancia de propostas como o pan-arabismo e o pan-africanismo criaram condi\u00e7\u00f5es para o estreitamento de la\u00e7os entre atores locais e regionais, aproximando-os a partir de diferentes iniciativas que variavam entre acordos bilaterais, multilaterais, confer\u00eancias, encontros e manifesta\u00e7\u00f5es em espa\u00e7os como as Na\u00e7\u00f5es Unidas. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Nessa perspectiva, antes mesmo de produzir uma distin\u00e7\u00e3o conceitual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o de Terceiro Mundo, o N\u00e3o-Alinhamento e uma identidade dita N\u00e3o-Alinhada se manifesta gradativamente em diferentes partes do globo, mesmo sem a reivindica\u00e7\u00e3o direta de seus atores. De Nova Delhi \u00e0 Belgrado, passando por Colombo, Bandung, Cairo, Acra e mesmo Nova York, ideais de autonomia, coexist\u00eancia pac\u00edfica e favorecimento dos novos atores independentes em rela\u00e7\u00e3o ao desafio de constru\u00e7\u00e3o dos Estados e das Na\u00e7\u00f5es se tornam parte da genealogia de um movimento que se ocuparia em estabelecer uma amb\u00edgua intera\u00e7\u00e3o com a bipolaridade sist\u00eamica, contestando sua estrutura a partir da nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de blocos e, ao mesmo tempo, refor\u00e7ando sua exist\u00eancia de tal cen\u00e1rio a partir dos esfor\u00e7os de constru\u00e7\u00e3o de identidade e proje\u00e7\u00e3o em meio \u00e0s bases da Guerra Fria. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Se os ditos N\u00e3o-Alinhados conformaram uma nova perspectiva, ainda que difusa, de uma revis\u00e3o da ordem global, a sua trajet\u00f3ria ao longo das d\u00e9cadas da Guerra Fria foi composta por desafios, ambiguidades, problemas e ilus\u00f5es. Em primeiro lugar, a intera\u00e7\u00e3o entre atores distintos envolveu um princ\u00edpio de rivalidade em busca por protagonismo e primazia na dire\u00e7\u00e3o do movimento, opondo, direta ou indiretamente, Estados e mesmo lideran\u00e7as. No interior do movimento, rivalidades regionais, conflitos de agenda e de horizonte pol\u00edtico-ideol\u00f3gico permeou os esfor\u00e7os de constitui\u00e7\u00e3o de uma coes\u00e3o n\u00e3o institucional. Num segundo plano, a natureza de um relacionamento multilateral entre tais Estados estimulou o desenvolvimento de uma tens\u00e3o entre a nega\u00e7\u00e3o dos sistemas de poder e a forma\u00e7\u00e3o de um arranjo pr\u00f3prio. Ao negarem o interesse pela forma\u00e7\u00e3o de um bloco espec\u00edfico, os ditos N\u00e3o-Alinhados tamb\u00e9m fracassaram na produ\u00e7\u00e3o de uma conforma\u00e7\u00e3o flex\u00edvel capaz de ir al\u00e9m de um car\u00e1ter reativo diante dos acontecimentos em n\u00edvel global e regional.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Uma terceira quest\u00e3o diz respeito aos limites estruturais a uma atua\u00e7\u00e3o assertiva dos N\u00e3o-Alinhados. O enraizamento da condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica no interior do sistema capitalista, a heran\u00e7a colonial e os impasses registrados quanto a constitui\u00e7\u00e3o de uma via s\u00f3lida de desenvolvimento coexistiam com os esfor\u00e7os de melhoria na posi\u00e7\u00e3o externa de tais atores, constituindo uma balan\u00e7a pol\u00edtica nem sempre favor\u00e1vel para um engajamento consistente na esfera global. Nesse sentido, influenciados diretamente pelas din\u00e2micas dom\u00e9stica, regional e mundial, os esfor\u00e7os autonomistas dos N\u00e3o-Alinhados sofreram com os tons da descontinuidade ao longo da Hist\u00f3ria, evidenciando as insufici\u00eancias envolvendo uma proposta de revis\u00e3o da ordem internacional sem a altera\u00e7\u00e3o radical das bases de fomento \u00e0 desigualdade entre os atores no sistema global.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Por fim, se N\u00e3o-Alinhamento n\u00e3o se tornou sin\u00f4nimo de Equidist\u00e2ncia, a afirma\u00e7\u00e3o de um tipo de inser\u00e7\u00e3o internacional aut\u00f4nomo em meio ao jogo da Guerra Fria n\u00e3o se traduziu na produ\u00e7\u00e3o de um modelo s\u00f3lido e coletivo de proje\u00e7\u00e3o externa. Entre Estados mais pr\u00f3ximos do chamado mundo socialista e outros com maiores la\u00e7os entre os capitalistas, uma Pol\u00edtica Externa dita N\u00e3o-Alinhada adquiriu um sentido de incerteza diante das varia\u00e7\u00f5es observadas dentro da trajet\u00f3ria de um mesmo Estado ou de forma comparada entre dois atores distintos. Nesse sentido, um mesmo Egito de Nasser demonstrou alguma habilidade diplom\u00e1tica e, ao mesmo tempo, os limites de sua pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma ao transitar entre URSS e EUA em diferentes conjunturas. No campo dos conflitos, disputas entre diferentes concep\u00e7\u00f5es de N\u00e3o-Alinhamento e defini\u00e7\u00e3o de um suposto perfil internacional evidenciavam a aus\u00eancia de fronteiras r\u00edgidas neste ep\u00edteto, demonstrando a capilaridade de tal movimenta\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, a incorpora\u00e7\u00e3o de incertezas quanto \u00e0 sua pr\u00f3pria identidade. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Um N\u00e3o-Alinhamento hoje? Movimenta\u00e7\u00f5es autonomistas em meio \u00e0s polariza\u00e7\u00f5es em n\u00edvel global.<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em certo sentido, o N\u00e3o-Alinhamento enquanto movimento n\u00e3o desapareceu. Apesar da sua perda de import\u00e2ncia diante do fim da Guerra Fria, diferentes pa\u00edses sob tal signo continuaram a desenvolver Confer\u00eancias de debate sobre o passado, o presente e o futuro da pol\u00edtica global. Outras iniciativas como os BRICS, apesar de n\u00e3o constitu\u00edrem efetivamente uma esp\u00e9cie de N\u00e3o-Alinhamento, assemelhavam-se a tal movimenta\u00e7\u00e3o no sentido de expressarem uma perspectiva alternativa para as rela\u00e7\u00f5es mundiais, sinalizando com diferentes agendas potenciais de revis\u00e3o da ordem global a partir das demandas do Sul.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O atual contexto internacional evidenciou a defini\u00e7\u00e3o de novos comportamentos autonomistas. Diante das press\u00f5es sist\u00eamicas impulsionadas pelo conflito entre OTAN e R\u00fassia, um princ\u00edpio de a\u00e7\u00e3o externa alternativo foi desenvolvido por diferentes Estados ao redor do globo, desenvolvendo um relacionamento complexo entre os principais polos do poder mundial na atualidade. A ofensiva diplom\u00e1tica impulsionada pelos principais expoentes da Alian\u00e7a Militar do Ocidente na dire\u00e7\u00e3o de outros continentes para a produ\u00e7\u00e3o de um isolamento da R\u00fassia se mostrou desastrosa. Pa\u00edses heterog\u00eaneos como Brasil, \u00cdndia, \u00c1frica do Sul, Egito, Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos, al\u00e9m de tantos outros, vem demonstrando um princ\u00edpio de habilidade diplom\u00e1tica ao estabelecer condi\u00e7\u00f5es para uma leitura cr\u00edtica sobre o conflito e acenarem, em maior ou menor medida, com o desejo de tra\u00e7ar um cen\u00e1rio favor\u00e1vel ao di\u00e1logo entre os principais Estados beligerantes. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Longe de assumirem uma a\u00e7\u00e3o coletiva e comum, tais atores constituem hoje um desafio diante das estrat\u00e9gias pol\u00edticas do Ocidente ao questionarem uma no\u00e7\u00e3o unilateral do conflito, apontarem a exist\u00eancia de quest\u00f5es que ultrapassam a conden\u00e1vel invas\u00e3o russa e assumirem uma dimens\u00e3o geopol\u00edtica do problema. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel classificar tal postura como um N\u00e3o-Alinhamento <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>stricto sensu<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">, tais posturas evidenciam as perman\u00eancias de movimenta\u00e7\u00f5es autonomistas diante do acirramento das tens\u00f5es em n\u00edvel global, aumentando o papel a ser desempenhado pelos Estados emergentes na produ\u00e7\u00e3o de algum equil\u00edbrio que lhes favore\u00e7a em termos de capacidade de influ\u00eancia nas decis\u00f5es globais. Nesse sentido, ao interagirem de forma complexa com o ambiente de Crise tais atores reafirmam as suas respectivas capacidades de ag\u00eancia, mobilizando diferentes recursos na tentativa de transformar a emerg\u00eancia de novos desafios em n\u00edvel global em janelas de oportunidade para maior proje\u00e7\u00e3o externa.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Mais de sessenta anos separam a atual conjuntura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s Primeiras Confer\u00eancias N\u00e3o-Alinhadas. No contexto da Guerra Fria, o N\u00e3o-Alinhamento se traduziu em base de afirma\u00e7\u00e3o das Pol\u00edticas Externas a partir de um vi\u00e9s autonomista no \u00e2mbito do Terceiro Mundo, al\u00e9m de estar relacionado a constitui\u00e7\u00e3o de um movimento que, sem uma institucionaliza\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, apresentar-se-ia como um importante espa\u00e7o de debate sobre a pol\u00edtica internacional e a perspectiva de uma revis\u00e3o da Ordem a partir das agendas do Sul Global. Na atualidade, manifesta\u00e7\u00f5es autonomistas frente ao quadro de aprofundamento da Crise Sist\u00eamica a partir de um marco geopol\u00edtico como a Guerra da Ucr\u00e2nia se tornam sedutoras para a aplica\u00e7\u00e3o do signo de N\u00e3o-Alinhado. Contudo, se a apropria\u00e7\u00e3o de tal conceito n\u00e3o se torna ainda adequada para designar algumas das novas facetas da pol\u00edtica internacional, uma leitura cr\u00edtica sobre o papel desempenhado por atores emergentes na atual conjuntura exige o reconhecimento das suas relev\u00e2ncias em meio ao contexto de transi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ao estabelecerem ressalvas quanto ao tipo de movimento desempenhado pelos antigos centros de poder e n\u00e3o necessariamente praticarem uma esp\u00e9cie de alinhamento em rela\u00e7\u00e3o aos polos emergentes na \u00faltima d\u00e9cada, diferentes atores regionais evidenciam como processos de aprofundamento das tens\u00f5es globais podem acarretar condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para a amplia\u00e7\u00e3o de autonomia externa, eleva\u00e7\u00e3o das margens de negocia\u00e7\u00e3o entre os polos de poder e um maior peso na balan\u00e7a da pol\u00edtica internacional. Se Bandung, Brioni e Belgrado constitu\u00edram parte de um roteiro geopol\u00edtico de uma inser\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma no \u00e2mbito do Terceiro Mundo, os caminhos alternativos do sistema mundial est\u00e3o sendo tra\u00e7ados em diferentes partes e continentes, evidenciando a complexidade da atual conjuntura e seu car\u00e1ter estrat\u00e9gico dentro de um processo de crise que se arrasta h\u00e1 d\u00e9cadas. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\"><b>Refer\u00eancias b\u00e1sicas:<\/b><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">CURADO, Pedro Rocha Fleury. <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>A Guerra Fria e a \u2018coopera\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento com os pa\u00edses n\u00e3o-alinhados:<\/i><\/span><\/span><b> <\/b><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">um estudo de caso sobre o Egito Nasserista (1955-1967). Tese (Doutorado em Economia Pol\u00edtica Internacional), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">HOBSBAWM, \u00c9ric J. <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>A Era dos Extremos:<\/i><\/span><\/span><b> <\/b><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">o breve s\u00e9culo XX. 2\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\">NIEBUHR, Robert. <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\"><i>The Search for a Cold War Legitimacy:<\/i><\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\"> Foreign Policy and Tito\u2019s Yugoslavia. Leiden; Boston: Brill, 2018.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\">RAJAK, Svetozar. <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\"><i>No bargaining chips, no spheres of interest:<\/i><\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\"> the yugoslav origins of cold war non \u2013 alignment. <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Journal of Cold War Studies, 16 (1), p.146-179, 2014.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">SANTOS, Mateus Jos\u00e9 da Silva. <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>\u2018Das Pot\u00eancias N\u00e3o-Alinhadas\u2019:<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"> o Egito e a Pol\u00edtica Externa Independente de J\u00e2nio Quadros e Jo\u00e3o Goulart (1961-1962). Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Hist\u00f3ria) &#8211; Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2022. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\">SAUVY, Alfred. Trois Mondes, Une Plan\u00e8te. In: <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\"><i>Vingti\u00e8me Si\u00e8cle<\/i><\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"en-US\">: Revue d\u2019histoire, n\u00ba12, out.\/dez.1986, p.81-83. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">VIGEVANI, Tullo. <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>Terceiro Mundo:<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"> conceito e Hist\u00f3ria. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1990.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Mateus Santos<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Doutorando em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal de Pelotas. Membro Pesquisador do Laborat\u00f3rio de Geopol\u00edtica, Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Movimentos Antissist\u00eamicos. Atualmente desenvolve estudos de Doutoramento acerca das rela\u00e7\u00f5es entre Brasil, Egito e Iugosl\u00e1via no contexto da Pol\u00edtica Externa Independente (1961-1964).<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos diante de uma Nova Guerra Fria? Mobilizada por segmentos da imprensa, intelectuais e acad\u00eamicos, o conceito relativo \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de um conflito multifacetado entre dois sistemas de poder assume alguma import\u00e2ncia na atual conjuntura, tendo como um dos principais planos de fundo a Guerra da Ucr\u00e2nia e sua dimens\u00e3o sist\u00eamica a partir da eleva\u00e7\u00e3o &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/2023\/06\/14\/a-politica-internacional-para-alem-de-washington-pequim-e-moscou-passado-e-presente-de-luta-por-autonomia-e-influencia-entre-atores-emergentes-por-mateus-santos\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":636,"featured_media":958,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[63,65,1],"tags":[6,52,42,67,50],"class_list":["post-956","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-expert-opinions","category-geopolitica","category-noticias","tag-america-latina","tag-declinio-dos-eua","tag-geopolitica","tag-global-history","tag-politica-externa-brasileira","item-wrap"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/files\/2023\/06\/pexels-magda-ehlers-2660262-scaled-e1710616579113.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/636"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=956"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/956\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":959,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/956\/revisions\/959"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/media\/958"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/geomercosul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}