{"id":337,"date":"2025-09-22T14:28:22","date_gmt":"2025-09-22T17:28:22","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/?p=337"},"modified":"2025-09-22T14:28:22","modified_gmt":"2025-09-22T17:28:22","slug":"mais-do-que-um-esportista-um-cidadao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/2025\/09\/22\/mais-do-que-um-esportista-um-cidadao\/","title":{"rendered":"Mais do que um esportista, um cidad\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de Humberto Rodrigues Corr\u00eaa e como ele transformou a vida de muitas pessoas em Santa Vit\u00f3ria do Palmar<\/p>\n<p>Por Henri Porto Dias<\/p>\n<p>Quando se pensa no cen\u00e1rio esportivo, mais especificamente o futebol, o natural \u00e9 lembrar das estrelas, de grandes partidas e de times hist\u00f3ricos. Por\u00e9m, nas periferias da hist\u00f3ria, vivem os contos muito menos badalados do desporto e os \u201can\u00f4nimos\u201d viram protagonistas da narrativa. E \u00e9 em um desses relatos que Humberto Corr\u00eaa, carinhosamente conhecido em Santa Vit\u00f3ria do Palmar como Esquerdinha, contribuiu de maneira muito positiva, at\u00e9 depois de sua morte, para a comunidade santa-vitoriense.<\/p>\n<p>Nascido no dia 4 de Mar\u00e7o de 1940, Humberto, filho de Dona Ondina e Seu Lourival, ou o \u201cvelho Loureva\u201d, como era conhecido pelos mais \u00edntimos, veio de uma fam\u00edlia humilde. Sua m\u00e3e era dona de casa e tamb\u00e9m trabalhava como lavadeira, em prol de sustentar seus oito filhos. J\u00e1 o velho Loureva, era condutor de uma carrocinha muito lembrada por todos de sua \u00e9poca, levando o p\u00e3o de cada dia para a popula\u00e7\u00e3o \u201cmergulhona\u201d.<\/p>\n<p>Perdendo o pai aos 8 anos de idade, Humberto logo come\u00e7ou a trabalhar, buscando ajudar sua fam\u00edlia a sobreviver. Trabalhou como engraxate, profiss\u00e3o sempre muito bem relembrada por ele, baleiro no antigo Cine Teatro Independ\u00eancia, refer\u00eancia da arte em Santa Vit\u00f3ria do Palmar, e atendente no com\u00e9rcio local. Ap\u00f3s prestar o servi\u00e7o militar no 9\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria Motorizado, em Pelotas, retornou a sua terra natal e come\u00e7ou de vez a caminhada que marcaria a cidade at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>O futebol, uma das grandes paix\u00f5es de Humberto, marcou tanto sua trajet\u00f3ria como o rebatizou para quem o conhecia. Seu irm\u00e3o, ao v\u00ea-lo jogando pela ala esquerda nos clubes da cidade, o apelidou de ESQUERDINHA.<\/p>\n<p>Esquerdinha passou pela equipe da Vila Jacinto e pelos quatro principais clubes de futebol de campo de Santa Vit\u00f3ria do Palmar: Santa Cruz, Vitoriense, Rio Branco, onde inclusive foi campe\u00e3o com as cores do Tricolor da Coxilha. Mas, tanto as suas pernas, quanto a sua paix\u00e3o, o levaram a fazer hist\u00f3ria no time do maior jogador de Santa Vit\u00f3ria do Palmar, o Cardeal, e no seu pr\u00f3prio time do cora\u00e7\u00e3o, o Gr\u00eamio Esportivo Brasil.<\/p>\n<p>Pelo clube que tem o escudo id\u00eantico ao do seu xar\u00e1, Brasil de Pelotas, e que tem as cores do S\u00e3o Paulo de Rio Grande, Esquerdinha atuou em diversas \u00e1reas. Como jogador, ajudou a institui\u00e7\u00e3o a ser campe\u00e3 do citadino na d\u00e9cada de 70, t\u00edtulo esse que n\u00e3o era conquistado desde os anos 20, quando Cardeal ainda constava no plantel da equipe. A paix\u00e3o pela agremia\u00e7\u00e3o foi tamanha que Esquerdinha n\u00e3o se contentou apenas em cal\u00e7ar as chuteiras, atuando como treinador do juvenil do Verde e Encarnado, e conseguindo o cargo mais alto da agremia\u00e7\u00e3o, o de presidente, conforme lembrou sua vi\u00fava, Tereza Rocha Correa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de contribuir para a continuidade e o desenvolvimento do Gr\u00eamio Esportivo Brasil, Esquerdinha foi presidente do E.C Pindorama, clube de futsal de Santa Vit\u00f3ria, e foi grande incentivador do clube de futsal varzeano que, junto com o G.E.Brasil, ocupavam o posto de maiores paix\u00f5es futebol\u00edsticas em seu peito, o Esporte Clube Veterano.<\/p>\n<p>Realizando seus jogos em um extenso campo, de propriedade do Ex\u00e9rcito, na zona do Sarapico, campo que era prop\u00edcio para a pr\u00e1tica do esporte bret\u00e3o, Esquerdinha seguiu alimentando sua paix\u00e3o pelo futebol, como tamb\u00e9m a comunidade girava em volta do E.C. Veterano, em entretenimento esportivo, conforme descrito pelos jornais de Santa Vit\u00f3ria tais como o Liberal, e o Jornal da Cidade.<\/p>\n<p>O Veterano foi uma refer\u00eancia no futebol amador de Santa Vit\u00f3ria do Palmar, levando os que gostavam de esporte, ao lugar que se tornou cen\u00e1rio dos principais assuntos e coment\u00e1rios do desporto mergulh\u00e3o, e que seria parte marcante da vida de Humberto: o Posto Esso. Situado na Bar\u00e3o do Rio Branco, principal rua de Santa Vit\u00f3ria do Palmar, esquina General Portinho, o posto, que como estrutura ainda existe nos dias de hoje, sendo alugada e ocupada pela Rede de Postos Sim, \u00e9 lembrado at\u00e9 hoje, mesmo ap\u00f3s 15 anos de sua dissolu\u00e7\u00e3o, como o posto do Esquerdinha.<\/p>\n<p>Inicialmente trabalhando como frentista, Humberto cresceu dentro do posto, virando gerente, e depois, junto a Jos\u00e9 Amadeu Rocha, s\u00f3cio do Posto Esso, no qual ascendeu como um dos grandes empres\u00e1rios da cidade, trabalhando por 40 anos, at\u00e9 se aposentar.<\/p>\n<p>Humberto e Amadeu n\u00e3o seriam somente s\u00f3cios no neg\u00f3cio. Tornaram-se mais pr\u00f3ximos na fam\u00edlia virando genro, e sogro um do outro, respectivamente. Amadeu, junto de Isaura Cardoso Rocha, eram pais de Tereza Nedir Rocha, esposa de Humberto e com quem ele ficou at\u00e9 o final de sua vida, tendo como frutos dessa uni\u00e3o, Marilda, Jose Augusto, Gerson e Ang\u00e9lica.<\/p>\n<p>No posto, Esquerdinha nunca deixou de respirar o esporte, muito pelo contr\u00e1rio. Apesar de hoje n\u00e3o ser considerada, por lei, um esporte, a rinha de galo teve muita popularidade no Brasil h\u00e1 muitos anos e em Santa Vit\u00f3ria do Palmar n\u00e3o era diferente. Os entusiastas desse evento marcavam constante presen\u00e7a no Posto Esso com Esquerdinha que, al\u00e9m de ser criador desse tipo de animal, ia todo domingo de manh\u00e3 no extinto rinhedeiro da cidade (lugar onde se praticava a rinha de galo) para apostar boas quantias de dinheiro em seus galos favoritos. Al\u00e9m desses animais, Esquerdinha tamb\u00e9m criava cavalos, participando de eventos no Jockey Club Santa-Vitoriense.<\/p>\n<p>\u201cNo jockey corria carreiras (corridas de cavalo). Ele tinha os seus cavalos. \u00c0s vezes ele ganhava, outras perdia.\u201d, como disse Tereza Rocha Correa, vi\u00fava de Humberto.<\/p>\n<p>No fim da vida, j\u00e1 aposentado, Humberto n\u00e3o deixava de acompanhar e ajudar o G.E. Brasil. Contudo, tamb\u00e9m praticava dois jogos que ele gostava: a bocha e o carteado. No primeiro, ele ainda participava de torneios, no segundo j\u00e1 era mais voltado para a descontra\u00e7\u00e3o entre amigos, durante longas temporadas na praia da cidade, o Hermenegildo.<\/p>\n<p>Os esportes sempre permearam a vida de Esquerdinha em seus 77 anos de exist\u00eancia. Mais do que apenas um f\u00e3 ou entusiasta, ele sempre contribuiu para que suas paix\u00f5es seguissem vivas e crescessem no cen\u00e1rio santa-vitoriense. Por\u00e9m, o principal esporte que Humberto praticou em sua vida, n\u00e3o foi algo convencional, muito menos algo competitivo: Ajudar o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram poucas as vezes em que Esquerdinha tirou os mais necessitados do aperto. Alguns exemplos da bondade que ele praticou por todos esses anos foram documentados e contados nos jornais de Santa Vit\u00f3ria. O falecido professor e escritor Homero Vasques contou, em sua coluna no Jornal Liberal, em 2013, um caso em que a bondade de Humberto transcendeu as fronteiras mergulhonas.<\/p>\n<p>&#8220;Estando em Buenos Aires, um grupo de turistas conterr\u00e2neos, ao tomar um t\u00e1xi, na capital portenha, quando o motorista sentiu o linguajar portugu\u00eas e vendo que eram brasileiros, curioso, perguntou de onde vinham e ao saber que chegavam de Santa Vit\u00f3ria do Palmar, o mesmo referiu-se ao ESQUERDINHA, com carinho e gratid\u00e3o, pois o taxista, quando teve um imprevisto na estrada do Chu\u00ed (cidade vizinha a Santa Vit\u00f3ria do Palmar), ele precisou dos pr\u00e9stimos mec\u00e2nicos e o mo\u00e7o do Posto Esso mandou um autom\u00f3vel para socorrer o argentino e sua fam\u00edlia, dando-lhe toda a assist\u00eancia e o recebeu em sua casa, fato que o motorista de t\u00e1xi nunca mais esqueceu&#8221;. (Jornal Liberal, 30 de novembro de 2013)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro caso marcante, relembrado pelo jornal da cidade, tamb\u00e9m de Santa Vit\u00f3ria, foi quando seu amigo Pistola, um pintor residencial em Santa Vit\u00f3ria do Palmar, estava passando por s\u00e9rias dificuldades financeiras, sem dinheiro para pagar a conta de \u00e1gua e luz. Esquerdinha, ao saber da situa\u00e7\u00e3o, pediu para que ele pintasse somente a parte de fora da porta de sua casa, recompensando-o com o dinheiro necess\u00e1rio para a quita\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas. Tereza, ao estranhar a situa\u00e7\u00e3o inusitada, questionou o marido, que lhe respondeu:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 que o Pistola estava sem dinheiro e eu fiz quest\u00e3o de ajud\u00e1-lo. N\u00e3o podia deix\u00e1-lo empenhado, mas como sei que no m\u00eas que vem dever\u00e1 estar mais uma vez pelado, a\u00ed eu quebro outro galho dele e ele pinta o lado de dentro da porta, sem problemas&#8221;.<\/p>\n<p>A popularidade de Humberto na cidade era tamanha, que ele lan\u00e7ou e elegeu vereador seu irm\u00e3o Jacyr, o mesmo que o tinha apelidado de Esquerdinha, no pleito, as pessoas votaram em Jacyr somente pelo prest\u00edgio de seu irm\u00e3o Esquerdinha, fazendo quest\u00e3o de dizer que haviam votado nele, mesmo com ele n\u00e3o concorrendo na elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEsquerdinha foi um homem que sempre ajudou os que precisavam, de forma an\u00f4nima, pois na escola onde eu trabalhava, quando os alunos conclu\u00edam a oitava s\u00e9rie, ele doava a gasolina para que os alunos e as professoras deles fizessem passeios em outras cidades: Rio Grande, Zool\u00f3gico de Sapucaia, Canela, Bento Gon\u00e7alves, Caxias, Porto Alegre, Gramado. Foi assim que muitos alunos carentes tiveram uma vis\u00e3o do mundo.\u201d Como relembra Marta Ara\u00fajo Dias, professora aposentada e moradora de Santa Vit\u00f3ria de Palmar.<\/p>\n<p>A dedica\u00e7\u00e3o de Humberto em fazer o bem foi retribu\u00edda pelo poder p\u00fablico, quando lhe foi concedido o t\u00edtulo de Cidad\u00e3o Em\u00e9rito do mun\u00edcipio, tamb\u00e9m servindo como reconhecimento de toda a comunidade por seus atos positivos.<\/p>\n<p>Humberto faleceu em outubro de 2017, ap\u00f3s uma vida de servi\u00e7os prestados ao esporte e a comunidade, por\u00e9m suas contribui\u00e7\u00f5es n\u00e3o cessariam nem mesmo depois do fim de sua vida. Ap\u00f3s seu falecimento, foi criada a ONG Comunit\u00e1ria Esquerdinha, em sua homenagem, com o \u00fanico e simples intuito de ajudar as pessoas carentes, com doa\u00e7\u00f5es de objetos ou de agasalhos.<\/p>\n<p>Esquerdinha foi um homem que est\u00e1 marcado para sempre na hist\u00f3ria de uma cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Isso pode passar irris\u00f3rio se for levada em conta as grandes escalas no qual se est\u00e1 acostumado a pensar quando se vem a ideia b\u00e1sica de um esporte, ou de atos altru\u00edstas. Por\u00e9m, em um mundo t\u00e3o dif\u00edcil e nebuloso, os pequenos e t\u00e3o raros atos de bondade s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o, e a hist\u00f3ria de Humberto Rodrigues Corr\u00eaa \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o de como um an\u00f4nimo pode transformar para melhor n\u00e3o s\u00f3 o cen\u00e1rio esportivo, como algo muito maior, a exist\u00eancia de um povo.<\/p>\n<p>Box Complementar:<\/p>\n<p>Nome: Humberto Rodrigues Corr\u00eaa (Esquerdinha)<\/p>\n<p>Data de Nascimento: 4 de Mar\u00e7o de 1940<\/p>\n<p>Data de Falecimento: 13 de Outubro de 2017<\/p>\n<p>Pai: Lourival Rodrigues Correa<\/p>\n<p>M\u00e3e: Ondina da Costa<\/p>\n<p>Esposa: Tereza Nedir Rocha Correa<\/p>\n<p>Filhos: Marilda, Jose Augusto, Gerson e Angelica<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de Humberto Rodrigues Corr\u00eaa e como ele transformou a vida de muitas pessoas em Santa Vit\u00f3ria do Palmar Por Henri Porto Dias Quando se pensa no cen\u00e1rio esportivo, mais especificamente o futebol,&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":1311,"featured_media":339,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-337","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-esporte-e-sociedade"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/files\/2025\/09\/IMG_20250922_142458.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/337","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1311"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=337"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/337\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":340,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/337\/revisions\/340"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/339"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=337"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/federalemcampo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}