{"id":605,"date":"2019-02-07T10:52:54","date_gmt":"2019-02-07T12:52:54","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/famed\/?p=605"},"modified":"2019-02-07T10:52:54","modified_gmt":"2019-02-07T12:52:54","slug":"hyposkillia-um-nome-estranho-para-uma-situacao-mais-frequente-do-que-imaginamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/famed\/2019\/02\/07\/hyposkillia-um-nome-estranho-para-uma-situacao-mais-frequente-do-que-imaginamos\/","title":{"rendered":"HYPOSKILLIA: UM NOME ESTRANHO PARA UMA SITUA\u00c7\u00c3O MAIS FREQUENTE DO QUE IMAGINAMOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Ana Lucia Coradazzi:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 alguns dias chegou \u00e0s minhas m\u00e3os o artigo do Dr. Herbert L. Fred, intitulado\u00a0<strong><em><a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC1336689\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hyposkillia\u00a0<\/a>,\u00a0<\/em><\/strong>publicado pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/thij.org\/?code=txhi-site\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Texas Heart Institute Journal<\/strong><\/a>. Pensei comigo: \u201cQue s\u00edndrome estranha\u2026 nunca ouvi falar disso!\u201d E comecei a ler o texto, por pura curiosidade. Logo no primeiro par\u00e1grafo percebi que j\u00e1 ouvi falar da tal\u00a0<em>hyposkillia<\/em>, e n\u00e3o foram poucas vezes. Trata-se de uma s\u00e9ria \u201cdefici\u00eancia em habilidades cl\u00ednicas\u201d, que o Dr. Fred definiu como a incapacidade do m\u00e9dico em oferecer uma boa assist\u00eancia aos seus pacientes. S\u00e3o profissionais que, embora tenham cumprido normalmente a extensa carga hor\u00e1ria da gradua\u00e7\u00e3o em Medicina e quase sempre tamb\u00e9m a dos anos de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.slowmedicine.com.br\/o-olhar-de-uma-residente-sobre-medicina-sem-pressa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>resid\u00eancia m\u00e9dica<\/strong><\/a>, n\u00e3o s\u00e3o capazes de extrair adequadamente a hist\u00f3ria cl\u00ednica dos seus pacientes, executar um bom exame f\u00edsico, associar seus achados a diagn\u00f3sticos pertinentes e propor uma estrat\u00e9gia terap\u00eautica coerente.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2018\/05\/16\/magazine\/health-issue-reinvention-of-primary-care-delivery.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Sua habilidade em se comunicar com pacientes e familiares<\/strong><\/a>, em geral, \u00e9 m\u00ednima, e sua pr\u00e1tica cl\u00ednica costuma se restringir a solicitar exames (dezenas deles) e oferecer procedimentos e medica\u00e7\u00f5es para corrigir os resultados encontrados. \u00c9 precisamente exercendo sua profiss\u00e3o dessa forma que eles perdem a chance valiosa de aprender algo sobre a hist\u00f3ria natural das doen\u00e7as e, mais importante ainda, sobre as pessoas que est\u00e3o sob seus cuidados.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/collections.nlm.nih.gov\/\"><img class=\"aligncenter wp-image-3876 size-full\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/www.slowmedicine.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/ajaxp.jpeg?resize=97%2C120&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"97\" height=\"120\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda nos meus anos de faculdade, ouvi muitas vezes de meus professores a m\u00e1xima \u201c<a href=\"http:\/\/semiologiamedica.blogspot.com\/2012\/04\/clinica-e-soberana-para-o-medico.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>A cl\u00ednica \u00e9 soberana<\/strong><\/a>\u201d. Eles insistiam (muito) para que desenh\u00e1ssemos todo um racioc\u00ednio cl\u00ednico antes de solicitar um m\u00edsero hemograma. E perguntavam: \u201cVoc\u00ea pediu esse hemograma esperando responder que pergunta?\u201d. O acesso a quaisquer exames diagn\u00f3sticos, est\u00e1 certo, era mais dif\u00edcil. Tomografias computadorizadas eram solicitadas somente com autoriza\u00e7\u00e3o do docente, pois eram caras e demoradas. Ainda n\u00e3o disp\u00fanhamos de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica, muito menos de PET-scan, e a variedade de exames laboratoriais dispon\u00edveis era incrivelmente menor. A cl\u00ednica era soberana n\u00e3o apenas porque era, mas porque precisava ser. Quando a tecnologia come\u00e7ou a ficar acess\u00edvel atrav\u00e9s de um simples pedido, passamos a viver a ilus\u00e3o de que a cl\u00ednica \u2013 aquela, que dava trabalho, lembra? \u2013 talvez n\u00e3o fosse assim t\u00e3o necess\u00e1ria. Para que examinar o abdome de algu\u00e9m, se a tomografia nos mostra cada \u00f3rg\u00e3o detalhadamente em poucos minutos? Para que perder tempo pensando em cada exame laboratorial a ser solicitado, se temos pedidos-padr\u00e3o para cada queixa cl\u00ednica?\u00a0<a href=\"https:\/\/www.slowmedicine.com.br\/plano-terapeutico-um-tempo-para-compartilhar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Foi assim, ano ap\u00f3s ano, que fomos perdendo nossa capacidade de extrair dos pacientes as informa\u00e7\u00f5es que nos fariam compreender o que est\u00e1 acontecendo com eles<\/strong><\/a>, e raciocinar de forma individual sobre que estrat\u00e9gia poder\u00e1 ajud\u00e1-los. Deixamos de conversar com eles, de toc\u00e1-los, de estabelecer com eles a parceria que nos torna \u00fanicos em suas vidas. N\u00f3s migramos da medicina\u00a0<em>high-touch<\/em>para a medicina\u00a0<em>high-tech<\/em>, sem perceber o quanto perdemos pelo caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Durante meu \u00faltimo ano na faculdade, a tal\u00a0<img class=\"size-medium wp-image-3878 alignleft\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.slowmedicine.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/photo-1526256262350-7da7584cf5eb.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><a href=\"http:\/\/www.epcm.org.br\/site\/index.php\/artigos-cientificos\/115-hyposkillia-deficiencia-de-habilidades-clinicas.html\"><em>hy<\/em><\/a><em>poskillia\u00a0<\/em>ficou \u00f3bvia bem diante dos meus olhos. Orientada pelo Professor Doutor M\u00e1rio Rubens Guimar\u00e3es Montenegro, um desses mestres em Medicina que n\u00e3o vemos mais por a\u00ed,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-879X2003000300014\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>desenvolvi um trabalho no qual compar\u00e1vamos os achados cl\u00ednicos (hist\u00f3ria e exame f\u00edsico) descritos nos prontu\u00e1rios dos pacientes com os achados de suas autopsias<\/strong><\/a>. As discrep\u00e2ncias eram impressionantes em v\u00e1rios casos, mas lembro bem da nossa surpresa quando decidimos comparar a acur\u00e1cia no diagn\u00f3stico de quadros neurol\u00f3gicos agudos, em geral acidentes vasculares ou tumores cerebrais. N\u00f3s avaliamos a capacidade dos m\u00e9dicos em levantar corretamente as hip\u00f3teses diagn\u00f3sticas feitas \u00e0 admiss\u00e3o dos pacientes, verificando \u00e0 aut\u00f3psia se estavam corretas. Fizemos isso com pacientes de dois per\u00edodos diferentes: 1975 a 1982, e 1992 a 1996. No segundo per\u00edodo, quando j\u00e1 disp\u00fanhamos de tomografia computadorizada, os diagn\u00f3sticos cl\u00ednicos dos eventos cerebrais eram bem menos acurados que no primeiro! Em geral, v\u00edamos como hip\u00f3tese diagn\u00f3stica algo como \u201chemiplegia direita a esclarecer\u201d ou \u201cconvuls\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sim, a tecnologia nos deixou mais pregui\u00e7osos. Assim como a inven\u00e7\u00e3o do controle remoto. No entanto, n\u00e3o seria nem minimamente razo\u00e1vel imaginar que ter a tecnologia \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o foi o que nos tornou m\u00e9dicos piores. O que nos fez menos capazes fomos n\u00f3s mesmos. Foi nossa inabilidade em associar nosso racioc\u00ednio cl\u00ednico, com toda sua complexidade e beleza, ao poder da tecnologia moderna. Fomos n\u00f3s que substitu\u00edmos o primeiro pela segunda, em vez de faz\u00ea-los caminhar de m\u00e3os dadas. A boa not\u00edcia \u00e9 que cabe tamb\u00e9m a n\u00f3s dar alguns passos numa nova dire\u00e7\u00e3o. Todos n\u00f3s, mesmo os que n\u00e3o foram treinados \u00e0 luz da bendita \u201cA cl\u00ednica \u00e9 soberana\u201d, temos a intelig\u00eancia e a capacidade necess\u00e1rias para praticar a medicina em sua forma mais soberba: aquela que \u00e9 feita pelo paciente e para o paciente. Bem ao estilo\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/hZR_Fgx4elY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>Slow Medicine<\/em><\/strong><\/a>.<\/p>\n<p><img class=\"aligncenter size-medium wp-image-3879\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/www.slowmedicine.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/default.jpg?resize=245%2C300&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"245\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p>___________________________________________<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0https:\/\/www.slowmedicine.com.br\/hyposkillia-um-nome-estranho-para-uma-situacao-mais-frequente-do-que-imaginamos\/<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Ana L\u00facia Coradazzi<\/strong>: Sou m\u00e9dica, graduada pela Faculdade de Medicina de Botucatu \u2013 UNESP. Conclu\u00ed a resid\u00eancia m\u00e9dica em Hematologia e Hemoterapia na UNESP e, posteriormente, a resid\u00eancia em Cancerologia Cl\u00ednica no Hospital Amaral Carvalho, em Ja\u00fa\/SP. Foram o imenso desconforto e a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia ao lidar com pacientes em sua fase final de vida que me levaram a cursar uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Medicina Paliativa pelo Instituto Pallium, em Buenos Aires, o que mudou de forma irrevers\u00edvel os rumos da minha vida. Criei a Unidade de Controle da Dor e Cuidados Paliativos do Hospital Amaral Carvalho, onde permaneci como coordenadora\u00a0at\u00e9 outubro de 2015. Atualmente sou respons\u00e1vel pela equipe de Oncologia Cl\u00ednica da Faculdade de Medicina da UNESP, em Botucatu, e sou m\u00e9dica do Centro Avan\u00e7ado em Terapias de Suporte e Medicina Integrativa (CATSMI) do Hospital Alem\u00e3o Oswaldo Cruz, em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nSou autora do livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nofinaldocorredor.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>No Final do Corredor e do blog hom\u00f4nimo<\/strong><\/a>, nos quais escrevo sobre o quanto nosso envolvimento nas hist\u00f3rias de vida dos pacientes pode ser transformadora, principalmente para n\u00f3s mesmos.<br \/>\nMoro em Ja\u00fa, no interior de S\u00e3o Paulo, com meu marido F\u00e1bio e as duas luzes da minha vida, Mariana e Lorena, al\u00e9m da minha coelha de estima\u00e7\u00e3o, Julieika. Junto deles, busco o equil\u00edbrio de que tantos dos meus pacientes falam, encontrando na corrida e na pr\u00e1tica do yoga a paz que preciso para manter a mente saud\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Lucia Coradazzi: H\u00e1 alguns dias chegou \u00e0s minhas m\u00e3os o artigo do Dr. Herbert L. Fred, intitulado\u00a0Hyposkillia\u00a0,\u00a0publicado pelo\u00a0Texas Heart Institute Journal. Pensei comigo: \u201cQue s\u00edndrome estranha\u2026 nunca ouvi falar disso!\u201d E comecei a ler o texto, por pura curiosidade. 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