{"id":8810,"date":"2016-10-03T22:43:48","date_gmt":"2016-10-04T01:43:48","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/?p=8810"},"modified":"2016-10-03T22:43:48","modified_gmt":"2016-10-04T01:43:48","slug":"falando-sobre-jornalismo-com-manuela-franceschini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/falando-sobre-jornalismo-com-manuela-franceschini\/","title":{"rendered":"Falando sobre jornalismo com Manuela Franceschini"},"content":{"rendered":"<p><em>Por: <a href=\"http:\/\/Rafael Mirapalheta\">Rafael Mirapalheta<\/a><\/em><\/p>\n<p>Desde o advento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o papel do jornalismo sempre foi de extrema import\u00e2ncia na sociedade. Dentre as tarefas de um profissional do ramo est\u00e3o a de noticiar, cobrir pautas sendo fiel \u00e0 verdade e expandir os seus conhecimentos. E, ainda que esse papel sempre tenha tido sua import\u00e2ncia reconhecida, a devida remunera\u00e7\u00e3o e prest\u00edgio nem sempre ocorrem, principalmente em centros menores.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um receio que todos enfrentam ao se depararem com a vontade de seguir na profiss\u00e3o. E muitas d\u00favidas naturalmente surgem: ser\u00e1 que vou ser reconhecido pelo\u00a0meu trabalho? Ser\u00e1 que posso ser bem sucedido na minha pequena cidade? Ser\u00e1 que vou me adaptar \u00e0s novas transforma\u00e7\u00f5es do jornalismo?<\/p>\n<p>Manuela Franceschini \u00e9 rep\u00f3rter do canal a cabo SporTV h\u00e1 mais de cinco anos e hoje cumpre na emissora o papel de correspondente internacional em Sidney, na Austr\u00e1lia. Com experi\u00eancia de sobra na bagagem, a jornalista conta sobre sua jornada de trabalho e tamb\u00e9m fala um pouco sobre estes temas recorrentes na \u00e1rea. Confira a entrevista:<\/p>\n<p><strong>Como foi o seu come\u00e7o no jornalismo; se sempre sentiu interesse pela profiss\u00e3o, e tamb\u00e9m quais foram seus primeiros trabalhos.<\/strong><\/p>\n<p>Sou filha de jornalistas e n\u00e3o me lembro de algum dia ter pensado em fazer outra coisa. Gostava das hist\u00f3rias que eles contavam, do modo como viviam, das experi\u00eancias que tinham. Tamb\u00e9m sempre gostei muito de ler e de escrever. E no jornalismo essas duas coisas s\u00e3o a chave de qualquer trabalho, n\u00e3o importa onde voc\u00ea esteja &#8211; tem que ler muito e tem que escrever bem. \u00c9 claro que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, mas \u00e9 um bom come\u00e7o. Esses eram meus trunfos, ent\u00e3o l\u00e1 fui eu. Me formei na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), avaliada como a melhor universidade de jornalismo no pa\u00eds, onde o curso \u00e9 bastante pr\u00e1tico. T\u00ednhamos laborat\u00f3rios de r\u00e1dio, tev\u00ea, impresso, online. Assim, aprendi como contar uma hist\u00f3ria da melhor maneira em cada um desses meios. E a\u00ed entendi que n\u00e3o existe jornalista de tev\u00ea, de r\u00e1dio, de impresso, de online. Existe o jornalista e existe a hist\u00f3ria. Onde voc\u00ea quer contar agora? Comecei querendo contar em jornal. Fiz o trainee do Estad\u00e3o em 2009, uma experi\u00eancia incr\u00edvel. Ao mesmo tempo em que fazia o trainee, era roteirista em uma ag\u00eancia de conte\u00fado pra internet. Toda not\u00edcia \u00e9 uma hist\u00f3ria, toda hist\u00f3ria pede uma narrativa e toda narrativa precisa de um roteiro. Depois, senti vontade de experimentar revistas e apliquei para o Curso Abril, em 2010. Fui chamada, fiz o curso e fui contratada pela Veja, como rep\u00f3rter de internacional. L\u00e1, fiz coberturas marcantes, como o resgate dos mineiros no Chile, as elei\u00e7\u00f5es na Argentina e no Brasil, a ocupa\u00e7\u00e3o das favelas pelas primeiras UPPs no Rio, as trag\u00e9dias das chuvas tamb\u00e9m no Rio, na regi\u00e3o serrana. Surgiu ent\u00e3o o convite pra ir pra Globo, pro SporTV Rep\u00f3rter, pra ser rep\u00f3rter especial. Me pareceu uma chance imperd\u00edvel: fazer reportagem e roteiro pra um document\u00e1rio de uma hora de dura\u00e7\u00e3o, o esporte como um meio &#8211; e n\u00e3o um fim &#8211; pra contar grandes hist\u00f3rias. E queriam algu\u00e9m\u00a0que n\u00e3o fosse do esporte, que apenas gostasse de hist\u00f3rias. Aceitei, mudei pro Rio e aqui estou, desde 2011.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea considera que a mudan\u00e7a pra um grande centro do pa\u00eds (no seu caso, de Florian\u00f3polis para o Rio de Janeiro) \u00e9 primordial para obter sucesso na carreira de jornalista?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acho que seja primordial a mudan\u00e7a para um grande centro. O que acho importante \u00e9 a experi\u00eancia nele, em algum momento da vida. Tem coisas muito boas sendo feitas em cidades pequenas e m\u00e9dias, n\u00e3o existe jornalismo s\u00f3 no Rio e em S\u00e3o Paulo, de jeito nenhum. Mas enxergar de fora traz um olhar que nunca se alcan\u00e7a quando a gente n\u00e3o sai do mesmo lugar. Pra mim, mudar sempre fez parte da vida. Nasci em S\u00e3o Paulo, mudei pra Santa Catarina, morei um ano na It\u00e1lia durante a faculdade, voltei pra S\u00e3o Paulo, agora pro Rio, e provavelmente ainda mudarei muitas vezes. Acho que passar por lugares tamb\u00e9m \u00e9 parte da experi\u00eancia como jornalista. Mas escolher uma carreira em uma cidade grande ou pequena depende tamb\u00e9m de como e onde se gosta de viver.<\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos anos a profiss\u00e3o do jornalista se descaracterizou e se pluralizou, principalmente com o desenvolvimento das novas m\u00eddias. Isso se evidencia com os exemplos que temos da cobertura dos protestos ano passado, onde muita gente fez um papel jornal\u00edstico ao cobri-los e com a recente determina\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 preciso diploma para exercer a profiss\u00e3o. Com que olhos voc\u00ea enxerga essas transforma\u00e7\u00f5es e qual \u00e9 o papel do jornalista hoje?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acho que o papel do jornalista tenha se descaracterizado. Uma coisa \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o social e outra coisa \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do jornalismo. Sim, a internet transformou a informa\u00e7\u00e3o em um bem comum, livre e participativo, escrevemos todos uma grande hist\u00f3ria nas redes sociais e isso \u00e9 sensacional! Mas jornalismo \u00e9 uma outra coisa. Pra contar uma hist\u00f3ria &#8211; uma hist\u00f3ria que de fato documente um dia, um per\u00edodo, uma \u00e9poca, um fato -, voc\u00ea precisa de muitas, mas muitas horas de dedica\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea precisa ter aprendido o que \u00e9 jornalismo, o que \u00e9 \u00e9tica jornal\u00edstica, como se apura, como se noticia, como se entrevista, como se observa, como se conta, pra quem se conta, por que se conta. Voc\u00ea precisa de credibilidade. Voc\u00ea precisa ter lido muito, ter tido muitas experi\u00eancias ao longo da vida, ter ouvido muita gente, ter conhecido muita gente, estar\u00a0por dentro das not\u00edcias de ontem, de hoje e do ano passado. O jornalismo se transformou \u00e0 medida em que precisa ser mais r\u00e1pido, mais barato e n\u00e3o atender s\u00f3 a uma plataforma. Se voc\u00ea \u00e9 jornalista hoje, voc\u00ea precisa saber usar todos os recursos a seu favor. Tem v\u00eddeo no jornal, tem link na revista, tem texto na tev\u00ea. O jornalista tamb\u00e9m precisa ter no\u00e7\u00f5es de fotografia, de edi\u00e7\u00e3o, de reportagem, n\u00e3o importa o que fa\u00e7a. A discuss\u00e3o sobre quanto se paga pra um profissional desse, que faz cinco coisas e at\u00e9 a d\u00e9cada passada fazia uma, \u00e9 um outro ponto. Mas isso n\u00e3o quer dizer que blogs e redes sociais est\u00e3o assumindo o lugar do jornalismo, de jeito nenhum. Eles apenas participam do processo da informa\u00e7\u00e3o &#8211; e isso s\u00f3 tem aspectos positivos.<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, qual o melhor e o pior valor que o advento da internet trouxe ao ramo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vejo absolutamente nada de ruim que a internet possa trazer a um jornalista. Ela \u00e9 uma ferramenta valios\u00edssima &#8211; de observa\u00e7\u00e3o, de comunica\u00e7\u00e3o, de estudo. \u00c9 claro que ela n\u00e3o substitui os m\u00e9todos cl\u00e1ssicos de apura\u00e7\u00e3o &#8211; olhar, escutar, sentir, perguntar, checar. Mais uma vez, vale o rigor, vale o bom senso, vale o senso de responsabilidade do jornalista. Mas unida a esses procedimentos b\u00e1sicos e imprescind\u00edveis, ela \u00e9 uma aliada imbat\u00edvel. Gra\u00e7as \u00e0 internet, voc\u00ea consegue contactar uma fonte em outro continente em um segundo; consegue observar a sociedade em tempo real sob infinitos \u00e2ngulos; consegue acesso a informa\u00e7\u00f5es e poss\u00edveis pautas do mundo inteiro, de centenas de fontes. Voc\u00ea sabe no mesmo segundo de algo que se passou do outro lado do mundo; voc\u00ea pode conversar com pessoas de qualquer parte do mundo; o mundo, ele est\u00e1 logo ali, a um clique. Pode existir algo mais fant\u00e1stico?<\/p>\n<p><strong>Que conselhos tu darias para quem est\u00e1 come\u00e7ando, e pretende seguir carreira na profiss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu estava come\u00e7ando, no trainee do Estad\u00e3o, Paco Sanchez, um renomado jornalista espanhol, da Universidade de Navarra, nos deu algumas aulas. E ele nos disse algo que nunca esqueci. Que texto \u00e9 alma; que apura\u00e7\u00e3o \u00e9 escutar, observar e sentir. Cinco anos depois, posso garantir: esse \u00e9 o segredo. Por isso, tenha todas as\u00a0experi\u00eancias poss\u00edveis. Pra ser um bom jornalista, tem que ser uma boa pessoa. Porque voc\u00ea precisa entender as hist\u00f3rias das pessoas, precisa se colocar no lugar delas, precisa traduzir o que elas nem v\u00e3o conseguir te falar. Precisa saber ler as pessoas, os lugares, ler as sensa\u00e7\u00f5es. Viaje muito, conhe\u00e7a muitos lugares, as cidades min\u00fasculas e as muito grandes; se interesse por tudo, converse com todo tipo de gente, pergunte muito, escute muito, escute, escute. Leia tudo o que puder, veja muitos filmes, viva tudo o que puder. Quanto mais bagagem, melhor. Melhor voc\u00ea vai ler as pessoas, ler os lugares, ler as sensa\u00e7\u00f5es. As suas e as do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Manuela \u00e9 correspondente internacional na Austr\u00e1lia<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2016\/10\/Sem-t\u00edtulo-2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-8812\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2016\/10\/Sem-t\u00edtulo-2-424x301.png\" alt=\"sem-titulo\" width=\"424\" height=\"301\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2016\/10\/Sem-t\u00edtulo-2-424x301.png 424w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2016\/10\/Sem-t\u00edtulo-2-212x150.png 212w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2016\/10\/Sem-t\u00edtulo-2.png 572w\" sizes=\"auto, (max-width: 424px) 100vw, 424px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Rafael Mirapalheta Desde o advento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o papel do jornalismo sempre foi de extrema import\u00e2ncia na sociedade. 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