{"id":22205,"date":"2026-07-26T10:02:01","date_gmt":"2026-07-26T13:02:01","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/?p=22205"},"modified":"2026-07-26T10:03:24","modified_gmt":"2026-07-26T13:03:24","slug":"entre-aguas-e-encruzilhadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/entre-aguas-e-encruzilhadas\/","title":{"rendered":"Entre \u00e1guas e encruzilhadas"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"font-size: xx-large;\"><b>Como as religi\u00f5es de matriz africana ocupam o espa\u00e7o p\u00fablico em Pelotas<\/b><\/span><\/h3>\n<div id=\"attachment_22206\" style=\"width: 2570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Esquinda-do-axe-Foto-da-materia-de-joice-lima-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-22206\" class=\"size-full wp-image-22206\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Esquinda-do-axe-Foto-da-materia-de-joice-lima-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1707\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Esquinda-do-axe-Foto-da-materia-de-joice-lima-scaled.jpg 2560w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Esquinda-do-axe-Foto-da-materia-de-joice-lima-424x283.jpg 424w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Esquinda-do-axe-Foto-da-materia-de-joice-lima-212x141.jpg 212w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Esquinda-do-axe-Foto-da-materia-de-joice-lima-768x512.jpg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Esquinda-do-axe-Foto-da-materia-de-joice-lima-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Esquinda-do-axe-Foto-da-materia-de-joice-lima-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-22206\" class=\"wp-caption-text\">Inaugura\u00e7\u00e3o da Esquina do Ax\u00e9, junto ao Mercado P\u00fablico de Pelotas. Foto Rodrigo Chagas especial Em Pauta<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Kailaine Quevedo\/ Em Pauta<\/strong><\/em><\/p>\n<p align=\"left\">Pelotas \u00e9 conhecida pelos casar\u00f5es do centro hist\u00f3rico, pela tradi\u00e7\u00e3o doceira e pela for\u00e7a de sua universidade. Mas por tr\u00e1s dessa imagem existe outra Pelotas, mais antiga e menos contada: a cidade que foi erguida pelo trabalho, pela intelig\u00eancia e pelo corpo de pessoas negras escravizadas nas charqueadas, e que hoje \u00e9 reconhecida como um dos maiores polos de religiosidade afro-brasileira do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"left\">Essa presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 recente. Ela remonta ao s\u00e9culo XIX, quando os primeiros terreiros come\u00e7aram a se organizar na regi\u00e3o sul do Rio Grande do Sul, mantendo vivas, atrav\u00e9s da oralidade, pr\u00e1ticas e tradi\u00e7\u00f5es trazidas pela di\u00e1spora africana. Ao longo de mais de dois s\u00e9culos, essa religiosidade passou da discri\u00e7\u00e3o para a ocupa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima do espa\u00e7o p\u00fablico, e hoje se manifesta em leis, monumentos, celebra\u00e7\u00f5es e datas fixas no calend\u00e1rio da cidade.<\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: x-large;\"><b>Batuque, Umbanda e Quimbanda: as religi\u00f5es que formam o povo de terreiro pelotense<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"left\">Em Pelotas, como em boa parte do Rio Grande do Sul, a religiosidade afro-ga\u00facha se organiza principalmente em tr\u00eas vertentes que dialogam entre si dentro de um mesmo terreiro: o Batuque, a mais antiga delas, que cultua doze orix\u00e1s e mant\u00e9m o nag\u00f4 como l\u00edngua lit\u00fargica; a Umbanda, que re\u00fane caboclos, pretos-velhos e orix\u00e1s; e a Quimbanda, ou Linha Cruzada, voltada ao culto de Exus e Pombagiras e que, atualmente, \u00e9 a que mais cresce entre as tr\u00eas. Nas casas religiosas da cidade, \u00e9 comum que essas tradi\u00e7\u00f5es coexistam sob um mesmo teto, integrando a mesma comunidade e os mesmos rituais.<\/p>\n<p align=\"left\">Essa heran\u00e7a deixou marcas que v\u00e3o muito al\u00e9m dos muros dos terreiros. Um dos exemplos mais simb\u00f3licos \u00e9 a demarca\u00e7\u00e3o do assentamento do Bar\u00e1 no Mercado Central, realizada em 2021 como forma de reafirmar a tradi\u00e7\u00e3o afro-diasp\u00f3rica no cora\u00e7\u00e3o da cidade. Desde 2015, a Prociss\u00e3o do Bar\u00e1 acontece anualmente e j\u00e1 se tornou um dos rituais p\u00fablicos mais tradicionais da cidade, ao lado das festividades dedicadas a Iemanj\u00e1. A cidade tamb\u00e9m recebeu, nos \u00faltimos anos, monumentos em homenagem ao Exu Bar\u00e1 da Rua e ao orix\u00e1 Ogum, refor\u00e7ando a presen\u00e7a religiosa afro-brasileira na paisagem urbana.<\/p>\n<div id=\"attachment_22207\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Foto-redimensionada-2025-11-07T102537.657-Bara-Jornal-Tradicao_.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-22207\" class=\"wp-image-22207 size-full\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Foto-redimensionada-2025-11-07T102537.657-Bara-Jornal-Tradicao_.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Foto-redimensionada-2025-11-07T102537.657-Bara-Jornal-Tradicao_.jpeg 800w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Foto-redimensionada-2025-11-07T102537.657-Bara-Jornal-Tradicao_-424x318.jpeg 424w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Foto-redimensionada-2025-11-07T102537.657-Bara-Jornal-Tradicao_-212x159.jpeg 212w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/empauta\/files\/2026\/07\/Foto-redimensionada-2025-11-07T102537.657-Bara-Jornal-Tradicao_-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-22207\" class=\"wp-caption-text\"><em> Vice prefeita Dani Brisolara e membros do Municipal do Povo de Terreiro.\u00a0 Foto: Jornal Tradi\u00e7\u00e3o especial Em Pauta<\/em><\/p><\/div>\n<h2><a name=\"_1rmi8h3juaqa\"><\/a> <span style=\"font-size: x-large;\"><b>Um conselho para representar o povo de terreiro<\/b><\/span><\/h2>\n<p align=\"left\">Desde 2018, essas comunidades contam com um espa\u00e7o institucional pr\u00f3prio dentro da Prefeitura: o Conselho Municipal do Povo de Terreiro, criado pela Lei n\u00ba 6.584. O \u00f3rg\u00e3o re\u00fane lideran\u00e7as de terreiros, casas e centros religiosos da cidade, com a miss\u00e3o de propor pol\u00edticas p\u00fablicas para as religi\u00f5es de matriz africana e atuar no combate \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa. Entre seus projetos est\u00e1 o mapeamento das casas de religi\u00e3o da cidade, feito em di\u00e1logo com o levantamento estadual conduzido pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan).<\/p>\n<p align=\"left\">\u00c0 frente do Conselho est\u00e1 Pai Rodrigo de Bar\u00e1, babalorix\u00e1 e uma das principais lideran\u00e7as religiosas da cidade. Foi dele a iniciativa que, em 2024 surgiu a ideia da proposta de reconhecer uma orix\u00e1 como padroeira do munic\u00edpio. &#8220;Se a hist\u00f3ria da cidade j\u00e1 \u00e9 representada por um santo da tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, tamb\u00e9m seria leg\u00edtimo que uma orix\u00e1 representasse as religi\u00f5es de matriz africana&#8221;, comentou Pai Rodrigo de Bar\u00e1 ao justificar a ideia.<\/p>\n<p align=\"left\">A proposta foi debatida internamente entre lideran\u00e7as e praticantes das religi\u00f5es de matriz africana que integram o \u00f3rg\u00e3o, at\u00e9 ser votada e definida a orix\u00e1 que representaria o munic\u00edpio. Depois, o processo seguiu os tr\u00e2mites institucionais: elabora\u00e7\u00e3o de um projeto de lei fundamentado na Constitui\u00e7\u00e3o Federal e em instrumentos como o Estatuto da Igualdade Racial, encaminhamento ao vereador Paulo Coitinho e tramita\u00e7\u00e3o pela C\u00e2mara de Vereadores, passando pelas comiss\u00f5es de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a e de Or\u00e7amento e Finan\u00e7as. Segundo Coitinho, n\u00e3o houve contesta\u00e7\u00f5es relevantes ao projeto ao longo de sua tramita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">Antes da vota\u00e7\u00e3o final, o pr\u00f3prio povo de terreiro se mobilizou para ampliar o debate: promoveu di\u00e1logos diretos com os vereadores e realizou uma consulta p\u00fablica nas redes sociais, que reuniu mais de 500 votos e pouqu\u00edssimas manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias. &#8220;Reconhecer a presen\u00e7a de uma orix\u00e1 como padroeira representava, sobretudo, reconhecer a contribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, cultural e religiosa das comunidades de matriz africana para a forma\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio&#8221;, resume Pai Rodrigo.<\/p>\n<h2><a name=\"_1rvp2ttwca68\"><\/a> <span style=\"font-size: x-large;\"><b>Por que Oxum foi escolhida para ser a padroeira da cidade<\/b><\/span><\/h2>\n<p align=\"left\">No dia 16 de setembro de 2024, a C\u00e2mara de Vereadores aprovou a Lei Municipal n\u00ba 7.363, proclamando a orix\u00e1 Oxum, ao lado de S\u00e3o Francisco de Paula, padroeira de Pelotas. Foi a primeira vez que uma divindade das religi\u00f5es de matriz africana passou a integrar oficialmente os s\u00edmbolos que representam o munic\u00edpio.<\/p>\n<p align=\"left\">A escolha n\u00e3o foi aleat\u00f3ria. Para as lideran\u00e7as religiosas ouvidas ao longo do processo, Oxum, orix\u00e1 das \u00e1guas doces, da fertilidade e do ouro, dialoga diretamente com a identidade de uma cidade cercada de \u00e1gua e conhecida por seus doces. &#8220;A orix\u00e1 Oxum dialoga muito com o nosso munic\u00edpio: ela \u00e9 a orix\u00e1 da do\u00e7ura, das \u00e1guas, da fertilidade&#8221;, resume o vereador Paulo Coitinho. J\u00e1 a historiadora Francisca Jesus, estudiosa da presen\u00e7a negra em Pelotas, lembra que a tradi\u00e7\u00e3o doceira da cidade tamb\u00e9m tem ra\u00edzes negras: &#8220;quem mexia os tachos eram as mulheres negras, quem fazia as adapta\u00e7\u00f5es nas receitas eram as mulheres negras&#8221;, afirma, destacando que essas mulheres eram detentoras de uma verdadeira &#8220;tecnologia da culin\u00e1ria&#8221; trazida da \u00c1frica.<\/p>\n<p align=\"left\">Para Pai Rodrigo, a for\u00e7a simb\u00f3lica da escolha vai al\u00e9m da religi\u00e3o. &#8220;N\u00e3o \u00e9 apenas uma homenagem religiosa: ela vem com um resgate hist\u00f3rico para valorizar as religi\u00f5es africanas&#8221;, afirma. \u00c9 uma leitura compartilhada por Francisca Jesus, para quem reconhecer Oxum como padroeira &#8220;\u00e9 um processo de repara\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria que a cidade nos deve&#8221;.<\/p>\n<p align=\"left\"><a name=\"_ms47dlybczj2\"><\/a><span style=\"font-size: x-large;\"><b>F\u00e9 que tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtica<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"left\">Mais do que uma data no calend\u00e1rio oficial, o reconhecimento de Oxum \u00e9 descrito pelas lideran\u00e7as ouvidas como um marco de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. &#8220;Pelotas \u00e9 uma cidade negra. A gente fala muito que Pelotas tem constru\u00e7\u00f5es e pr\u00e9dios hist\u00f3ricos que s\u00e3o europeus. N\u00e3o, na verdade eles s\u00e3o negros, porque quem construiu, quem moldou, quem formou foram os negros&#8221;, afirma Pai Leonardo de Oxum, babalorix\u00e1 e secret\u00e1rio-geral do Conselho Municipal do Povo de Terreiro.<\/p>\n<p align=\"left\">A yalorix\u00e1 Y\u00e1 Sandrali, filha de Oxum, refor\u00e7a que o reconhecimento veio na forma de lei, e n\u00e3o de decreto, o que garante perman\u00eancia: &#8220;pode passar a gest\u00e3o que for, o prefeito que for, isso n\u00e3o vai mudar.&#8221; Para ela, a conquista tamb\u00e9m diz respeito ao lugar da religiosidade afro-brasileira na vida p\u00fablica da cidade: &#8220;a espiritualidade tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtica, e a pol\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 espiritualidade&#8221;, explica, lembrando que a pol\u00edtica nunca esteve de fato separada da religiosidade em Pelotas apenas vinculada, durante muito tempo, exclusivamente \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p align=\"left\">Hoje, entre a Prociss\u00e3o do Bar\u00e1, as festas para Iemanj\u00e1, os monumentos espalhados pela cidade e um conselho pr\u00f3prio dentro da Prefeitura, as religi\u00f5es de matriz africana em Pelotas ocupam, cada vez mais, um espa\u00e7o que sempre foi delas por direito. Como resume Pai Leonardo, &#8220;a repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que a gente tanto fala s\u00f3 come\u00e7a de verdade quando n\u00f3s nos colocamos, quando n\u00f3s vamos atr\u00e1s do que realmente \u00e9 nosso&#8221;.<\/p>\n<h5 align=\"left\"><em>Falas extra\u00eddas do acervo de entrevistas do document\u00e1rio &#8220;Pelotas \u00e9 de Oxum&#8221;, produzido como parte do Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).<\/em><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como as religi\u00f5es de matriz africana ocupam o espa\u00e7o p\u00fablico em Pelotas Kailaine Quevedo\/ Em Pauta Pelotas \u00e9 conhecida pelos casar\u00f5es do centro hist\u00f3rico, pela tradi\u00e7\u00e3o doceira e pela for\u00e7a de sua universidade. 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