{"id":76,"date":"2025-06-15T21:42:42","date_gmt":"2025-06-16T00:42:42","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/?p=76"},"modified":"2025-06-15T21:42:42","modified_gmt":"2025-06-16T00:42:42","slug":"afinal-o-que-e-uma-distopia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/2025\/06\/15\/afinal-o-que-e-uma-distopia\/","title":{"rendered":"Afinal, o que \u00e9 uma distopia?"},"content":{"rendered":"<p><img class=\"aligncenter wp-image-78 size-medium\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/unnamed-400x218.png\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/unnamed-400x218.png 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/unnamed-768x419.png 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/unnamed.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, voc\u00ea deve ter ouvido muito falar em distopias, seja relacionadas a livros, filmes e s\u00e9ries que algu\u00e9m recomendou, seja relacionada aos tempos sombrios em que vivemos. Mas, afinal, o que s\u00e3o distopias?<\/p>\n<p>Para que possamos responder a esta pergunta, precisamos, antes, partir de sua irm\u00e3, a\u00a0<em>utopia<\/em>. Ela sempre se refere a uma ideia de sociedade ideal, onde todos os cidad\u00e3os e todas as cidad\u00e3s tenham acesso igual a todas as oportunidades poss\u00edveis a ponto de poderem se dizer felizes sem exce\u00e7\u00e3o. Uma sociedade ut\u00f3pica, ent\u00e3o, \u00e9 aquela onde n\u00e3o haveria sofrimento, explora\u00e7\u00e3o ou qualquer tipo de opress\u00e3o, porque todo mundo vive a melhor vida poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A palavra utopia surge a partir de um livro chamado\u00a0<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Utopia-Thomas-More\/dp\/8582850719\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=TK5WOJBPN1VT&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.8gqalkrqZTll7P3rqSHWHb_WNLToneMtq8SyCOD0YQRHgipTGbgWAGczlgWLMCF6m8ckWRequnjAay0MILFBTjtFVxiE3q2JaqkUXfn-4oY3C2YRGiiWdUqcovX25wkOK3x001v5orWHxkRncfZA6u917mjhxeE72vX6RCKxUE9Jq7GEjK9gu9poAcPwXpFulE0mFGPhcJyRClNL066r7Gr6GbXvDKGS_7I5cLWSTpDP8HHA6GI26dpbzsPoYxr4XkzXXx5-Zk-fuCp61GmLgTs13TJWplW1TVD0tZgGMQc.Q83i0ewX_8Kkp5mBHKNoVyTXyoMSpmji9X6xIejRERM&amp;dib_tag=se&amp;keywords=utopia&amp;qid=1750031798&amp;sprefix=utopia%2Caps%2C246&amp;sr=8-1&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.6d798eae-cadf-45de-946a-f477d47705b9\"><em>Utopia<\/em><\/a>, escrito em 1516 por Thomas More, um dos maiores fil\u00f3fosos ingleses do Renascimento (e que, ironicamente, foi canonizado em 1935 pelo Papa Pio XI porque se recusou a aceitar a cria\u00e7\u00e3o da Igreja Anglicana pelo Rei Henrique VIII, que queria apenas poder se divorciar de sua primeira esposa&#8230; mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria). No livro, More usa o formato de um dos g\u00eaneros liter\u00e1rios de maior circula\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XVI: a literatura de viagem, em que os grandes navegadores narram suas aventuras desbravando o (ent\u00e3o) desconhecido Novo Mundo.<\/p>\n<p><em>Utopia<\/em> descreve, atrav\u00e9s dos olhos do (fict\u00edcio) navegador portugu\u00eas Raphael Htholoday a Ilha Utopia, uma sociedade tida como ideal onde n\u00e3o havia qualquer tipo de persegui\u00e7\u00e3o religiosa, de crime (as casas n\u00e3o teriam trancas nas portas e janelas)\u00a0 e propriedade privada. Homens e mulheres t\u00eam a mesma educa\u00e7\u00e3o, as mesmas profiss\u00f5es e n\u00e3o existe desemprego. Em outras palavras, a sociedade de Utopia era, em contraste com a Inglaterra (e a Europa) do s\u00e9culo 16, a sociedade ideal. H\u00e1 um \u00fanico problema nisso tudo: Utopia n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>A palavra \u00e9 formada pelo p\u00b4refixo grego\u00a0<em>u-<\/em> &#8220;n\u00e3o&#8221; + a palavra <em>topos &#8220;<\/em>lugar&#8221;. Utopia, ent\u00e3o, \u00e9 o n\u00e3o-lugar, o lugar que n\u00e3o existe. (A pron\u00fancia em ingl\u00eas remete, tamb\u00e9m, \u00e0 possibilidade do prefixo grego <em>ou-\u00a0<\/em>&#8220;bom&#8221;). Uma utopia, ent\u00e3o, s\u00f3 pode existir como uma ideia. Voltaremos a isto depois.<\/p>\n<p>Uma distopia geralmente \u00e9 vista como o oposto de uma utopia. Ora, se uma utopia \u00e9 um lugar onde todo mundo \u00e9 feliz de maneira igual, uma distopia \u00e9 um lugar onde todo mundo \u00e9 infeliz, uma sociedade de pesadelo ao contr\u00e1rio do sonho da utopia, n\u00e3o \u00e9 isso? Ainda que esta defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o esteja totalmente errada, ela \u00e9 imcompleta, e precisamos ver o porqu\u00ea. Para isso, talvez seja melhor usarmos um exemplo de uma obra que \u00e9 conhecida por quase todo mundo:\u00a0<em>Jogos Vorazes<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_82\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-82\" class=\"wp-image-82 size-medium\" src=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/id_d20_08565_08568_r5_wide-e97aec33e9bfed56ecd771fdc25008d95fcd5167-400x224.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/id_d20_08565_08568_r5_wide-e97aec33e9bfed56ecd771fdc25008d95fcd5167-400x224.jpg 400w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/id_d20_08565_08568_r5_wide-e97aec33e9bfed56ecd771fdc25008d95fcd5167-1024x574.jpg 1024w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/id_d20_08565_08568_r5_wide-e97aec33e9bfed56ecd771fdc25008d95fcd5167-768x431.jpg 768w, https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/distopias\/files\/2025\/06\/id_d20_08565_08568_r5_wide-e97aec33e9bfed56ecd771fdc25008d95fcd5167.jpg 1100w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-82\" class=\"wp-caption-text\">A opul\u00eancia da Capital \u00e9 sustentada pela opress\u00e3o e semiescravid\u00e3o dos distritos.<\/p><\/div>\n<p>Na Panem, o pa\u00eds em que as obras se passam, vemos que cada um dos Distritos \u00e9 oprimido pelos Pacificadores, soldados a servi\u00e7o da Capital. Cada um dos 12 Distritos \u00e9 respons\u00e1vel por produzir uma ind\u00fastria necess\u00e1ria para manter a vida de opul\u00eancia da Capital: pesca, pecu\u00e1ria, minera\u00e7\u00e3o, agricultura. Cada um dos produtos dos distritos (o que chamamos de\u00a0<em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Commodity\">commodities<\/a><\/em>) faz com que a vida na Capital seja vivida como a melhor vida poss\u00edvel; ou seja: uma utopia. Mas uma utopia que \u00e9 alimentada pela opress\u00e3o e desigualdade for\u00e7ada aos distritos, que vivem uma distopia. Vemos, tamb\u00e9m, que a pr\u00e1tica dos Jogos Vorazes &#8211; o espet\u00e1culo anual em que crian\u00e7as e adolescentes de cada um dos distritos s\u00e3o enviadas a uma arena para que se matem at\u00e9 que sobre somente um, para o deleite dos habitantes da Capital &#8212; \u00e9 apresentada como uma necessidade hist\u00f3rica para que a na\u00e7\u00e3o jamais se esque\u00e7a da superioridade dos vencedores da guerra civil que houve quando os Distritos se uniram contra seus opressores.<\/p>\n<p>O livro (e o filme) nos mostra, ent\u00e3o, que a distopia n\u00e3o \u00e9 necessariamemnte o oposto da utopia, mas que distopia e utopia s\u00e3o partes de uma mesma moeda e que uma depende da outra para existir. O mundo que \u00e9 de pesadelo para uns pode ser (e quase sempre \u00e9) de sonho para os outros, poderosos que det\u00eam, entyre outras coisas, o poder de modificar a hist\u00f3ria e as cren\u00e7as e valores pelos quais as pessoas precisam viver. O que faz com que um espa\u00e7o qualquer seja visto como um espa\u00e7o de sonho ou de pesadelo \u00e9 a perspectiva, o ponto de vista atrav\u00e9s do qual n\u00f3s, leitores e espectadores, somos apresentados a esta sociedade. Se concordamos com tudo o que nos \u00e9 apresentado a ponto de desejarmos que a nossa sociedade fosse assim, para n\u00f3s, aquilo passa a ser uma utopia. Mas, se o que vemos nos assusta a ponto de nos fazer refletir at\u00e9 que ponto aquelas a\u00e7\u00f5es e aqueles valores s\u00f3 existem no livro ou no filme, ou se j\u00e1 existem na vida real, ent\u00e3o estamos vendo uma distopia.<\/p>\n<p>A distopia, ent\u00e3o, \u00e9 um tipo de constru\u00e7\u00e3o de narrativas que tem o poder de nos fazer refletir sobre a exist\u00eancia, a nosso redor\u00a0 (e em qualquer grau) daqueles elementos que nos assustam para que possamos pensar em formas de propor mudan\u00e7as para que estes elementos n\u00e3o se tornem ainda maiores e mais perigosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, voc\u00ea deve ter ouvido muito falar em distopias, seja relacionadas a livros, filmes e s\u00e9ries que algu\u00e9m recomendou, seja relacionada aos tempos sombrios em que vivemos. Mas, afinal, o que s\u00e3o distopias? Para que possamos responder a esta pergunta, precisamos, antes, partir de sua irm\u00e3, a\u00a0utopia. 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