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Contexto de inserção

O turismo, via de regra, tem sido compreendido como uma atividade econômica capaz de ampliar os processos de geração de trabalho e renda. São vários os exemplos que poderiam ser mobilizados para demonstrar essa realidade, desde aqueles que se referem a municípios de porte pequeno, médio e grande, até aqueles que dizem respeito a estados e regiões, incluindo, igualmente, muitos países. Essa tem sido a justificativa mais comumente utilizada para legitimar o turismo como fenômeno social e também, em alguns casos, como área de saber.

Contudo, não é menos verdade que em muitos desses exemplos o maior crescimento econômico do turismo, por si só, não foi capaz de minimizar, de modo significativo, as desigualdades sociais e as disparidades regionais, sabendo, inclusive, que, em determinadas situações, as primeiras foram notadamente agravadas. Isso, a rigor, não deve provocar maiores surpresas, pois, como já foi bem documentado por grande parte das pesquisas na área da história econômica, nenhum ramo da economia, em si mesmo, é capaz de assegurar que o seu desenvolvimento, a priori, irá gerar maior bem-estar e melhor qualidade de vida para as pessoas. Logo, deve-se concluir que o papel do estado, ao contrário do que tem sido pregado há alguns anos, é ainda fundamental.

Desnecessário é dizer que esse papel, por outro lado, não é o mesmo que fora sob o modelo de um estado que reservava um espaço quase nulo para iniciativas da sociedade civil, reforçando, dessa maneira, os famosos modelos de gestão vertical e de planejamento fechado, ambos contrários à natureza relativamente indeterminada do processo histórico. Entende-se hoje que o estado deve ter como principal atribuição a capacidade de induzir o comportamento dos atores privados conforme diretrizes, politicamente estabelecidas, que devem orientar o desenvolvimento por meio da construção de planos, programas e projetos, cuja importância é válida para qualquer uma das esferas de competência do poder público.

Face a isso, a Universidade Pública, instância ainda privilegiada de produção do conhecimento, capaz de fomentar o desenvolvimento da cultura e de novas tecnologias, deve, necessariamente, assumir o seu papel pró-ativo, cabendo-lhe contribuir, pela via da pesquisa, para a criação de referenciais, ao mesmo tempo teóricos e aplicados, que possibilitem ampliar a compreensão da realidade, permitindo vislumbrar modelos de ação que não resultem num ativismo estéril e inconseqüente.

A questão sobre o papel da universidade na sociedade é de importância central, pois é a partir desta visão que concebemos um Curso de Bacharelado em Turismo, que construímos a idéia da formação que este bacharel deve ter e do que acreditamos ser a sua contribuição à sociedade.

A universidade pode relacionar-se com a sociedade de várias formas, mas vamos tomar por base que o sistema de ensino serve à sociedade na qual está inserido; e, gozando de autonomia, mantém uma relação criativa com a sociedade. Essas duas dimensões são compatíveis na medida em que a educação superior busca encontrar respostas para muitos problemas da sociedade e induz mudanças e progressos importantes (NEVES, 1992; KULLOK, 2001) .

No mesmo sentido, Belloni (1992) salienta que a universidade tem a função de gerar saber que seja, tanto, voltado para o avanço da fronteira da ciência, da arte, da cultura quanto para o encaminhamento da solução dos problemas atuais e prementes dos grupos sociais majoritários. O compromisso deve ser com a humanidade como um todo e, simultaneamente, com as questões imediatas e/ou com as situações específicas. Assim, este saber deve ser:

Um saber comprometido com a verdade porque ela é a base de construção de conhecimento. Um saber comprometido com a justiça porque ela é a base das relações entre os humanos. Um saber comprometido com a beleza porque ela possibilita a expressão da emoção e do prazer, sem o que a racionalidade reduz o humano a apenas uma de suas possibilidades. Um saber comprometido com a igualdade porque ela é a base da estrutura social e inerente à condição humana. Um saber comprometido com o verdadeiro, o justo, o belo é, em verdade, um compromisso com a transformação da sociedade, pois estes não são os valores predominantemente estabelecidos e praticados na organização da vida humana, apesar de lhe serem próprios e inerentes. …de gerar saber comprometido com a ruptura e a inovação e, neste sentido, sua característica dominante é a busca do desconhecido, do inédito; por conseqüência a criação de algumas das condições para a transformação [da sociedade] …(BELLONI, 1992, p.73-4)

O Curso de Bacharelado em Turismo da UFPEL foi concebido com o objetivo de formar profissionais capacitados para lidar com essas questões. De modo que a organização curricular procura traduzi-las por meio dos dois eixos que devem, à luz do que foi dito nos parágrafos anteriores, orientar a formação propiciada pelo curso: o eixo do planejamento e gestão e o eixo da teoria e pesquisa, ambos pensados de modo interdisciplinar. Busca-se com isso dar uma resposta àquilo que se imagina ser a complexidade das relações do turismo com a sociedade atual, chamando a atenção para a natureza transversal que o caracteriza, imerso que está em fenômenos que, tanto do ponto de vista de quem deve administrar quanto de quem deve investigar, transcendem as visões mais especializadas e fragmentadas de algumas estruturas curriculares.

1 NEVES, Clarissa Eckert Baeta. Funções Sociais do Ensino Superior Hoje. In.: BRANDÃO, Zaia et. al. Universidade e Educação. Campinas, SP: Papirus: Cedes; São Paulo: Ande: Anped, 1992. (Coletânia C.B.E.).

2KULLOK, Maisa Gomes Brandão. Uma nova concepção de educação superior. In.: FERNANDES, Cleoni M. B. e GRILLO, Marlene (Orgs.). Educação Superior: travessias e atravessamentos. Canoas: Ed. ULBRA, 2001.

3 BELLONI, Isaura. Função da Universidade: notas para reflexão. In.: BRANDÃO, Zaia et. al. Universidade e Educação. Campinas, SP: Papirus: Cedes; São Paulo: Ande: Anped, 1992. (Coletânia C.B.E.).