{"id":107,"date":"2016-03-16T15:14:06","date_gmt":"2016-03-16T18:14:06","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/?p=107"},"modified":"2019-02-08T11:57:21","modified_gmt":"2019-02-08T13:57:21","slug":"joao-boa-morte-cabra-marcado-pra-morrer-ferreira-gullar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/2016\/03\/16\/joao-boa-morte-cabra-marcado-pra-morrer-ferreira-gullar\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Boa-Morte. Cabra marcado pra morrer [Ferreira Gullar]"},"content":{"rendered":"<p>Vou contar para voc\u00eas<br \/>\num caso que sucedeu<br \/>\nna Para\u00edba do Norte<br \/>\ncom um homem que chamava<br \/>\nPedro Jo\u00e3o Boa-Morte<br \/>\nlavrador da Chapadinha:<br \/>\ntalvez tenha boa morte<br \/>\nporque vida ele n\u00e3o tinha.<\/p>\n<p>Sucedeu na Para\u00edba<br \/>\nmas \u00e9 uma historia banal<br \/>\nem todo aquele Nordeste.<br \/>\nPodia ser no Sergipe,<br \/>\nPernambuco ou Maranh\u00e3o,<br \/>\nque todo cabra-da-peste<br \/>\nali se chama Jo\u00e3o<br \/>\nBoa-Morte, vida n\u00e3o.<\/p>\n<p>Morava Jo\u00e3o nas terras<br \/>\nde um coronel muito rico,<br \/>\ntinha mulher e seis filhos,<br \/>\num c\u00e3o que chamava &#8220;Chico&#8221;,<br \/>\num fac\u00e3o de cortar mato,<br \/>\num chap\u00e9u e um tico-tico.<\/p>\n<p>Trabalhava noite e dia<br \/>\nnas terras do fazendeiro,<br \/>\nmal dormia, mal comia,<br \/>\nmal recebia dinheiro;<br \/>\nse n\u00e3o recebia n\u00e3o dava<br \/>\npara acender o candeeiro.<br \/>\nJo\u00e3o n\u00e3o sabia como<br \/>\nfugir desse cativeiro.<\/p>\n<p>Olhava pra&#8217;s crian\u00e7as<br \/>\nde olhos cavados de fome,<br \/>\nj\u00e1 consumindo a inf\u00e2ncia<br \/>\nna dura faina da ro\u00e7a.<br \/>\nSentia um n\u00f3 na garganta.<br \/>\nQuando uma delas almo\u00e7ava<br \/>\nas outras n\u00e3o, a que janta<br \/>\nno outro dia n\u00e3o almo\u00e7a.<\/p>\n<p>Olhava para Maria,<br \/>\nsua mulher, que a tristeza<br \/>\nna luta de todo o dia<br \/>\nt\u00e3o depressa envelheceu.<br \/>\nPerdera toda a alegria<br \/>\nperdera toda a beleza<br \/>\ne era t\u00e3o bela no dia<br \/>\nque Jo\u00e3o a conheceu.<\/p>\n<p>Que diabo tem nesta terra,<br \/>\nneste Nordeste maldito,<br \/>\nque mata como uma guerra<br \/>\ntudo que \u00e9 bom e bonito?<br \/>\nAssim Jo\u00e3o perguntava<br \/>\npara si mesmo e lembrava<br \/>\nque a tal guerra n\u00e3o matava<br \/>\no coronel Benedito!<\/p>\n<p>Essa guerra do Nordeste<br \/>\nn\u00e3o mata quem \u00e9 doutor<br \/>\nn\u00e3o mata quem \u00e9 dono de engenho,<br \/>\ns\u00f3 mata cabra-da-peste<br \/>\ns\u00f3 mata o trabalhador.<br \/>\nO dono do engenho engorda,<br \/>\nvira logo senador.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz um ano que os homens<br \/>\nque trabalham na fazenda<br \/>\ndo coronel Benedito<br \/>\ntiveram com ele um atrito<br \/>\ndevido ao pre\u00e7o da venda.<br \/>\nO pre\u00e7o do ano passado<br \/>\nj\u00e1 era t\u00e3o baixo e no entanto<br \/>\no coronel n\u00e3o quis dar<br \/>\no novo pre\u00e7o ajustado.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o e seus companheiros<br \/>\nn\u00e3o gostaram da proeza:<br \/>\nse o novo pre\u00e7o n\u00e3o dava<br \/>\npara garantir a mesa,<br \/>\naceitar pre\u00e7o mais baixo<br \/>\nj\u00e1 era muita fraqueza.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o vamos voltar atr\u00e1s.<br \/>\nPrescisamos de dinheiro,<br \/>\nse o coronel n\u00e3o d\u00e1 mais<br \/>\nvendemos nosso produto<br \/>\npara outro fazendeiro&#8221;.<\/p>\n<p>Com o coronel foram ter<br \/>\nmas quando comunicaram<br \/>\nque a outro iam vender<br \/>\no cereal que plantaram,<br \/>\no coronel respondeu:<br \/>\n&#8220;Ainda est\u00e1 para nascer<br \/>\num cabra pra fazer isso.<br \/>\nAquele que se atrever<br \/>\npode rezar, vai morrer,<br \/>\nvai tomar ch\u00e1 de sumi\u00e7o.&#8221;<br \/>\nO pessoal se assustou.<br \/>\nSabiam que o fazendeiro<br \/>\nn\u00e3o brinca com lavrador.<br \/>\nSe quem obedece morre<br \/>\nde fome e desespero,<br \/>\nquem n\u00e3o obedece corre<br \/>\nou vira &#8220;cabra morredor.&#8221;<\/p>\n<p>S\u00f3 um deles se atreveu<br \/>\na vender seu cereal.<br \/>\nNoutra fazenda vendeu<br \/>\nmas vendeu e se deu mal.<br \/>\nDormiu mas n\u00e3o amanheceu.<br \/>\nForam encontr\u00e1-lo enforcado<br \/>\nde manh\u00e3 num p\u00e9 de pau.<br \/>\nDebaixo do morto estava<br \/>\num cabra do Benedito<br \/>\nque dizia a quem passava:<\/p>\n<p>&#8220;Esse moleque maldito<br \/>\npensou que desrespeitava<br \/>\no que o patr\u00e3o tinha dito.<br \/>\nToda planta que aqui nasce<br \/>\n\u00e9 planta do coronel,<br \/>\nele manda nesta terra<br \/>\ncomo Deus manda no c\u00e9u.<br \/>\nQuem estiver descontente<br \/>\nacho melhor n\u00e3o falar<br \/>\nou fale e depois se ag\u00fcente<br \/>\nque eu mesmo venho enforcar.&#8221;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o ficou revoltado<br \/>\ncom aquele crime sem nome.<br \/>\nMaria disse: &#8220;Cuidado,<br \/>\nn\u00e3o te mete com esse homem.&#8221;<br \/>\nJo\u00e3o respondeu zangado:<br \/>\n&#8220;Antes morrer enforcado<br \/>\ndo que sucumbir de fome.&#8221;<\/p>\n<p>Nisso pensando, Jo\u00e3o<br \/>\nfalou com seus companheiros:<br \/>\n&#8220;Lavradores, meus irm\u00e3os,<br \/>\nesta nossa escravid\u00e3o<br \/>\ntem que ter um paradeiro.<br \/>\nN\u00e3o temos terra, nem p\u00e3o,<br \/>\nvivemos em um cativeiro.<br \/>\nLivremos nosso sert\u00e3o<br \/>\ndo jugo do fazendeiro.&#8221;<\/p>\n<p>O coronel Beneditino<br \/>\nquando soube que Jo\u00e3o<br \/>\ntais coisas havia dito<br \/>\nficou bravo como o c\u00e3o.<br \/>\nArmou dois &#8220;cabras&#8221; e disse:<br \/>\n&#8211; &#8220;Jo\u00e3o Boa-Morte n\u00e3o presta,<br \/>\nn\u00e3o quero na minhas terras<br \/>\ncaboclo metido a besta.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Vou Lhe dar uma li\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEle quer terra, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nPois vai ganhar o sert\u00e3o.<br \/>\nVai ter de andar a p\u00e9<br \/>\ndesde aqui ao Maranh\u00e3o.<br \/>\nQuando virar vagabundo<br \/>\nvai ter de baixara a crista.<br \/>\nVou avisar todo mundo<br \/>\nque esse cabra \u00e9 comunista.<br \/>\nQuem mexe com o Benedito<br \/>\nbem caro tem de pagar.<br \/>\nNingu\u00e9m lhe dar\u00e1 um palmo<br \/>\nde terra pra trabalhar.&#8221;<\/p>\n<p>Se assim disse, assim fez.<br \/>\nJo\u00e3o foi mandado embora<br \/>\nde seu casebre pacato.<br \/>\nDisse a Maria: &#8221; &#8211; N\u00e3o Chora,<br \/>\ntodo patr\u00e3o \u00e9 ingrato.&#8221;<br \/>\nE sa\u00edram mundo afora,<br \/>\nele, Maria, os seis filhos<br \/>\ne o fac\u00e3o de cortar mato.<\/p>\n<p>Andaram o resto do dia<br \/>\ne quando a noite ca\u00eda<br \/>\nchegaram numa fazenda:<br \/>\n&#8220;- Seu doutor, tenho fam\u00edlia,<br \/>\nsou homem trabalhador.<br \/>\nMe ceda um palmo de terra<br \/>\npra eu trabalhar pro senhor.&#8221;<\/p>\n<p>Ao que o doutor respondeu:<br \/>\n&#8220;Terra aqui tenho sobrando,<br \/>\ntodo este baix\u00e3o \u00e9 meu.<br \/>\nSe planta e colhe num dia,<br \/>\npode ficar trabalhando.&#8221;<br \/>\n&#8220;- Seu coronel, me desculpe,<br \/>\nmas eu n\u00e3o sei fazer isso.<br \/>\nQuem planta e colhe num dia,<br \/>\nn\u00e3o planta, faz feiti\u00e7o.&#8221;<br \/>\n&#8220;- Neste caso, n\u00e3o discuta,<br \/>\nacho melhor ir andando.&#8221;<\/p>\n<p>E l\u00e1 se foi Boa-Morte<br \/>\ncom a mulher e os seis meninos.<br \/>\nTalvez eu tenha mais sorte<br \/>\nna fazenda dos Quintinos.&#8221;<br \/>\nAndaram rumo do Norte,<br \/>\npara al\u00e9m da V\u00e1rzea dos Sinos:<br \/>\n&#8220;- Coronel, morro de fome<br \/>\ncom seis filhos e a mulher.<br \/>\nMe d\u00ea trabalho, sou homem<br \/>\npara o que der e vier.&#8221;<\/p>\n<p>E o coronel respondeu:<br \/>\n&#8220;- Trabalho tenho de sobra.<br \/>\nE se \u00e9 homem como diz<br \/>\nquero que me fa\u00e7a agora<br \/>\nesta raiz virar cobra<br \/>\ne depois virar raiz.<br \/>\nSe isso n\u00e3o faz, v\u00e1-se embora.&#8221;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o saiu com a fam\u00edlia<br \/>\nnum desespero sem nome.<br \/>\nEle, os filhos e Maria<br \/>\nestavam mortos de fome.<br \/>\nQue destino tomaria?<br \/>\nOnde iria trabalhar?<br \/>\nE \u00e0 sua volta ele via<br \/>\nterra e mais terra vazia,<br \/>\nmilho e cana a verdejar.<\/p>\n<p>O sol do sert\u00e3o ardia<br \/>\nsobre os oito a caminhar.<br \/>\nSem esperan\u00e7a de um dia<br \/>\nter um canto pra ficar,<br \/>\n\u00e0 sua volta ele via<br \/>\nterra e mais terra vazia<br \/>\nmilho e cana a verdejar.<\/p>\n<p>E assim, dia ap\u00f3s dia,<br \/>\nandaram os oito a vagar,<br \/>\ncom uma fome que do\u00eda<br \/>\nfazendo os filhos chorar,<br \/>\nmas o que mais lhe do\u00eda<br \/>\nera, com fome e sem lar,<br \/>\nver tanta terra vazia<br \/>\ntanta cana a verdejar.<\/p>\n<p>Era ver terra e ver gente<br \/>\ndaquele mesmo lugar,<br \/>\namigos, quase parentes,<br \/>\nque n\u00e3o podiam ajudar,<br \/>\nque se lhe dessem pousada<br \/>\ncaro tinha que pagar.<br \/>\nO que o coronel ordena<br \/>\n\u00e9 bom n\u00e3o contrariar.<\/p>\n<p>A muitas fazendas foram,<br \/>\nsempre o mesmo resultado.<br \/>\nMundico, o filho mais mo\u00e7o,<br \/>\nparecia condenado.<br \/>\nPra respirar era um esfor\u00e7o,<br \/>\ns\u00f3 andava carregado.<br \/>\n&#8220;- Mundico, tu ta me ouvindo?&#8221;<br \/>\nMundico estava calado.<\/p>\n<p>Mundico estava morrendo,<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o quase parado.<br \/>\nDeitaram o pobre no ch\u00e3o,<br \/>\nno ch\u00e3o com todo cuidado.<br \/>\nDeitaram e ficaram vendo<br \/>\nmorrer o pobre coitado.<\/p>\n<p>&#8220;- Meu filho&#8221;, gritou Jo\u00e3o,<br \/>\nse abra\u00e7ando com o menino.<br \/>\nMas de Mundico restava<br \/>\nsomente o corpo franzino.<br \/>\nCorpo que n\u00e3o precisava<br \/>\nnem de pai nem de p\u00e3o,<br \/>\nque precisava de ch\u00e3o<br \/>\nque dele n\u00e3o precisava.<\/p>\n<p>Enquanto isso ali perto<br \/>\ndetr\u00e1s de uma ribanceira,<br \/>\ntr\u00eas cabras com tiro certo<br \/>\nmatavam Pedro Teixeira,<br \/>\nhomem de dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lutara a vida inteira<br \/>\ncontra aquela explora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPedro Teixeira lutara<br \/>\nao lado de Juli\u00e3o<br \/>\nfalando aos caboclos para<br \/>\ndar melhor compreens\u00e3o<br \/>\ne uma Liga organizara<br \/>\npra lutar contra o patr\u00e3o,<br \/>\npra acabar com o cativeiro<br \/>\nque exista na regi\u00e3o,<br \/>\nque conduz ao desespero<br \/>\ntoda uma popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nonde s\u00f3 o fazendeiro<br \/>\ntem dinheiro e opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o foi a primeira<br \/>\nmorte de encomenda<br \/>\ncontra um l\u00edder campon\u00eas.<br \/>\nOutros foram assassinados<br \/>\npelos donos da fazenda.<br \/>\nMas cada Pedro Teixeira<br \/>\nque morre, logo aparece<br \/>\nmais um, mais quatro, mais seis<br \/>\n&#8211; que a luta n\u00e3o esmorece<br \/>\nagora que o campon\u00eas,<br \/>\ncansado de fazer prece<br \/>\ne de votar em burgu\u00eas,<br \/>\nse ergue contra a pobreza<br \/>\ne outra voz j\u00e1 n\u00e3o escuta,<br \/>\ns\u00f3 a voz que chama pra luta<br \/>\n&#8211; voz da Liga Camponesa.<\/p>\n<p>Mas Jo\u00e3o nada sabia<br \/>\nno desespero em que estava,<br \/>\nandando aquele caminho<br \/>\nonde ningu\u00e9m o queria.<br \/>\nJo\u00e3o Boa-Morte pensava<br \/>\nque se encontrava sozinho<br \/>\ne que sozinho morreria.<\/p>\n<p>Sozinho com cinco filhos<br \/>\ne sua pobre Maria<br \/>\nem cujos olhos o brilho<br \/>\nda morte se refletia.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o havia esperan\u00e7a,<br \/>\niam sucumbir de fome<br \/>\nele, Maria e as crian\u00e7as.<br \/>\nNaquela terra querida,<br \/>\nque era sua e n\u00e3o era,<br \/>\nonde sonhara com a vida<br \/>\nmas nunca viver pudera,<br \/>\nia morrer sem comida<br \/>\naquele de cuja lida<br \/>\ntanta comida nascera.<\/p>\n<p>Aquele de cuja m\u00e3o<br \/>\ntanta semente brotara,<br \/>\nque filho daquele ch\u00e3o,<br \/>\naquele ch\u00e3o fecundara;<br \/>\ne assim se fizera homem<br \/>\npara agora, como um c\u00e3o,<br \/>\nmorrer, com os filhos, de fome.<\/p>\n<p>E assim foi que Boa-Morte<br \/>\nquando chegou a Sap\u00e9,<br \/>\ndesiludido da sorte,<br \/>\ncerto que ia morrer,<br \/>\ndecidiu que aquele dia<br \/>\nantes da aurora nascer<br \/>\nos cinco filhos mataria<br \/>\ne mataria a mulher<br \/>\ndepois se suicidaria<br \/>\npara acabar de sofrer.<\/p>\n<p>Tomada essa decis\u00e3o<br \/>\nsentiu que uma paz sofrida<br \/>\nbrotava em seu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEra uma planta perdida,<br \/>\numa flor de maldi\u00e7\u00e3o<br \/>\nnascendo de sua m\u00e3o<br \/>\nque sempre plantara a vida.<\/p>\n<p>Seus olhos se encheram d&#8217;\u00e1gua.<br \/>\nNada podia fazer.<br \/>\nPra quem vive na m\u00e1goa,<br \/>\nm\u00e1goa menor \u00e9 morrer.<br \/>\nQue sentido tem a vida<br \/>\npra quem n\u00e3o pode viver?<br \/>\nPra quem plantando e colhendo<br \/>\nn\u00e3o tem direito a comer?<br \/>\nPra que ter filhos, se os filhos<br \/>\nna mis\u00e9ria v\u00e3o morrer?<br \/>\n\u00c9 prefer\u00edvel mat\u00e1-los<br \/>\naqueles que os fez nascer.<\/p>\n<p>Chegando a um lugar deserto<br \/>\npararam para dormir.<br \/>\nDeitaram todos no ch\u00e3o<br \/>\nsem nada para se cobrir.<br \/>\nQuando dormiam Jo\u00e3o<br \/>\nlevantou-se devagar<br \/>\npegando logo o fac\u00e3o<br \/>\ncom que os ia degolar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o se julgava sozinho<br \/>\nperdido na escurid\u00e3o<br \/>\nsem ter ningu\u00e9m para ajud\u00e1-lo<br \/>\nnaquela situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSem amigo e sem carinho<br \/>\namolava o seu fac\u00e3o<br \/>\npra matar a fam\u00edlia<br \/>\ne varar seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas como um louco atr\u00e1s dele<br \/>\nandava Chico Vaqueiro,<br \/>\num lavrador como ele<br \/>\ncomo ele sem dinheiro<br \/>\npara lev\u00e1-lo para a Liga<br \/>\ne lhe dar um paradeiro<br \/>\npara que assim ele siga<br \/>\no caminho verdadeiro.<br \/>\nPra dizer-lhe que a luta<br \/>\ns\u00f3 agora vai come\u00e7ar,<br \/>\nque ele n\u00e3o estava sozinho<br \/>\nn\u00e3o devia se matar.<br \/>\nDevia se unir aos outros<br \/>\npara com os outros lutar.<br \/>\nEm vez de matar os filhos<br \/>\ndevia era os libertar<br \/>\ndo jugo do fazendeiro<br \/>\nque j\u00e1 come\u00e7a a findar.<\/p>\n<p>E antes que Boa-Morte,<br \/>\nlevado pela afli\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem seis peitos diferentes<br \/>\nvarasse o seu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nChico Vaqueiro chegou:<br \/>\n&#8220;- Compadre, n\u00e3o fa\u00e7a isso<br \/>\nn\u00e3o mate quem \u00e9 inocente.<br \/>\nO inimigo da gente<br \/>\n&#8211; lhe disse Chico Vaqueiro &#8211;<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o os nossos parentes,<br \/>\no inimigo da gente<br \/>\n\u00e9 o coronel fazendeiro.<\/p>\n<p>O inimigo da gente<br \/>\n\u00e9 o latifundi\u00e1rio<br \/>\nque submete a n\u00f3s todos<br \/>\na esse cruel calv\u00e1rio.<br \/>\nPense um pouco meu amigo<br \/>\nn\u00e3o v\u00e1 seus filhos matar.<br \/>\n\u00c9 contra aquele inimigo<br \/>\nque n\u00f3s devemos lutar.<br \/>\nQue culpa tem seus filhos?<br \/>\nCulpa de tanto penar?<br \/>\n&#8211; Vamos mudar o sert\u00e3o<br \/>\npra vida deles mudar.&#8221;<br \/>\nEnquanto Chico falava<br \/>\nno rosto magro de Jo\u00e3o<br \/>\numa nova luz chegava.<br \/>\nE j\u00e1 a aurora, do ch\u00e3o,<br \/>\nde Sap\u00e9, se levantava.<\/p>\n<p>E assim se acaba uma parte<br \/>\nda hist\u00f3ria de Jo\u00e3o.<br \/>\nA outra parte da hist\u00f3ria<br \/>\nvai tendo continua\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o neste palco de rua,<br \/>\nmas no palco do sert\u00e3o.<br \/>\nos personagens s\u00e3o muitos<br \/>\ne muita a sua afli\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJ\u00e1 v\u00e3o compreendendo<br \/>\ncomo compreendeu Jo\u00e3o,<br \/>\nque o campon\u00eas vencer\u00e1<br \/>\npela for\u00e7a da uni\u00e3o.<br \/>\nQue \u00e9 entrando para as Ligas<br \/>\nque l\u00ea derrota o patr\u00e3o,<br \/>\nque o caminho da vit\u00f3ria<br \/>\nest\u00e1 na Revolu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>GULLAR, Ferreira. Jo\u00e3o Boa-Morte \u00a0[1962]. Toda poesia (1950-1980). Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1980.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vou contar para voc\u00eas um caso que sucedeu na Para\u00edba do Norte com um homem que chamava Pedro Jo\u00e3o Boa-Morte lavrador da Chapadinha: talvez tenha boa morte porque vida ele n\u00e3o tinha. Sucedeu na Para\u00edba mas \u00e9 uma historia banal em todo aquele Nordeste. Podia ser no Sergipe, Pernambuco ou Maranh\u00e3o, que todo cabra-da-peste ali &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/2016\/03\/16\/joao-boa-morte-cabra-marcado-pra-morrer-ferreira-gullar\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Jo\u00e3o Boa-Morte. Cabra marcado pra morrer [Ferreira Gullar]&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":594,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[138,136,137,9,28],"class_list":["post-107","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-cabra-marcado-pra-morrer","tag-ferreira-gullar","tag-joao-boa-morte","tag-poesia-brasileira","tag-poesia-brasileira-moderna"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p6XyNv-1J","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/594"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=107"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":109,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107\/revisions\/109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/aulusmm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}