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O Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC): Lida Campeira na Região de Bagé/RS (n° 7.03.00.013) constituiu-se a partir da demanda da Prefeitura Municipal de Bagé, do financiamento e cedência de metodologia do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e da realização, por meio do Bacharelado em Antropologia, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

O INRC teve como objetivo identificar, documentar e construir conhecimento sobre a lida campeira para fins de registro como Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro. O trabalho de campo foi executado no período de 2010 a 2012. A entrega dos Relatórios Finais, dos cinco Filmes e do CD-ROM Interativo foi realizada em 2013.

Desde então, a equipe vem acessando a área cultural do pampa (LEAL, 1997), por meio de trabalho etnográfico e acompanhamento das atividades realizadas pelos sujeitos detentores dos ofícios, denominados como campeiros, que vivenciam ou vivenciaram a lida da pecuária. São eles proprietários de terras – de grandes extensões, médias ou propriedades familiares – e/ou peões campeiros, trabalhadores rurais, que desempenham ou desempenharam as atividades de doma, pastoreio, esquila, ofício do guasqueiro, tropeada, artesanato, lida caseira, entre outras.

A lida campeira abarca uma série de atividades com relação ao manejo dos rebanhos e ao cotidiano das propriedades, configurando-se enquanto um modo de vida. Atenta-se para a noção de modo de vida para ressaltar o quanto a lida com os rebanhos de ovinos, bovinos e equinos está articulada com saberes cosmológicos sobre as relações entre humanos, outros animais e ambiente; um trabalho que acompanha os ciclos da criação, os horários do sol, as estações do ano, os períodos de chuva e de estiagem, com as
tecnologias desenvolvidas no campo científico e a racionalização do próprio trabalho.

O sítio do INRC: Lida Campeira, a região de Bagé, abrange o trabalho de campo realizado nos munícipios de Arroio Grande, Pelotas, Bagé, Hulha Negra, Herval, Aceguá (Brasil), Aceguá (Uruguai), Jaguarão e Piratini, por meio de relações que contemplam os caminhos das tropas, que percorreram o território colonial, levando e trazendo bens culturais para a lida; a criação de gado nas propriedades rurais do pampa; o transporte destes animais da campanha de Bagé para o abate nas charqueadas de Pelotas/RS, onde também eram adquiridos escravos para as estâncias.

Nossos interlocutores, em sua maioria, têm propriedade, ou campereiam, nos campos lisos, ao sul de Bagé, região característica do bioma pampa, marcados pela horizontalidade, de campos com ondulações suaves e riqueza de gramíneas. Porém, em Bagé, também realizamos trabalho etnográfico no Distrito de Palmas, na bacia alta do Rio Camaquã, com suas guaritas, aguadas, afloramento rochoso, peraus e penhascos.
Tais diferenças se manifestavam também por meio de relatos em que peões que
campereiam nos campos lisos e diziam ter dificuldade de se adaptarem à lida campeira nos campos dobrados.

A partir de 2016, a equipe do INRC iniciou a extensão da metodologia do IPHAN para inventariar os manejos nos campos do Alto Camaquã, que abrange os municípios de Bagé, Caçapava do Sul, Canguçu, Encruzilhada do Sul, Hulha Negra, Lavras do Sul, Piratini, Pinheiro Machado e Santana da Boa Vista, fato que se deu a partir de uma solicitação da Associação para o Desenvolvimento Sustentável do Alto Camaquã (ADAC). A ADAC consiste em uma rede de associações comunitárias, que envolve cerca de 500 famílias, distribuídas em 25 associações, com o objetivo de construir e fomentar projetos
orientados para o desenvolvimento territorial sustentável (ADAC, 2017).

A experiência deste projeto é ressaltada por esta região, localizada na Serra do Sudeste, ser considerada a mais empobrecida do Rio Grande do Sul, uma vez que não teve êxito dentro das propostas e dos modelos de desenvolvimento (BORBA, 2016). Porém, o discurso do Estado sobre a região encobre que os campos de pedra constituem a porção mais preservada do bioma pampa no Brasil, o que, devido a particularidade do manejo dos animais, as nuances da relação entre humanos e o ambiente, produz seus efeitos na lida.

As pesquisas, embasada na Antropologia e Etnografia, resultam em oficinas, banners, exposições, artigos, monografias, dissertações e teses, que buscam refletir sobre as diversas linhas que tecem o campo. Têm etnografado temas diversos, mas relacionados, como a doma de cavalos, o pastoreio com cachorros, o pastoreio de cabras, o pastoreio de ovelhas, relações de gênero na lida campeira, relações raciais, entre outros. Com isso,
destacamos a necessidade de atentarmos para um pampa diverso, seja do ponto de vista sociocultural, seja do ponto de vista ambiental, descrevendo os diferentes modos de vida em suas diferentes relações com os territórios e os ambientes que constituem os caminhos das tropas, os caminhos do pampa.

A experiência deste blog busca compartilhar e restituir o trabalho de campo aos interlocutores da pesquisa e demais interessados nas lidas campeiras. Aqui é possível acessar o contato da equipe, os Relatórios Finais das lidas inventariadas, os banners confeccionados sobre a lida, produções audiovisuais sobre as atividades, trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores da equipe e as primeiras informações da continuação
dos trabalhos nos campos dobrados do Alto Camaquã.

REFERÊNCIAS

BORBA, Marcos Flávio. Desenvolvimento territorial endógeno: o caso do Alto Camaquã. WAQUILL, Paulo; MATTE, Alessandra; NESKE, Márcio; BORBA, Marcos Flávio. Pecuária familiar no Rio Grande do Sul: história, diversidade social e dinâmicas de desenvolvimento. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 187-214, 2016.

LEAL, Ondina. Do etnografado ao etnografável: o “sul” como área cultural. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, n. 7, p. 201-214, 1997.

PORTAIS

ADAC. Associação para o Desenvolvimento Sustentável do Alto Camaquã. Disponível
em: http://www.altocamaqua.com.br/quem-somos/. Acesso em: 02 de junho de 2017.

Contato: inrcaltocamaquã@gmail.com