Vou-me embora pra Pasárgada [Manuel Bandeira]

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Poética [Manuel Bandeira]

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

[aula 19/05] Panorama Cultural da literatura Brasileira II

Mário de Andrade (1893-1945) e o Modernismo: a questão da identidade nacional; leitura de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928): o “caráter” da cultura brasileira; nacionalidade e paródia; análise de “A carta pras Icamiabas” (Capítulo IX)

Para ver/ouvir
Macunaíma (1969), filme dirigido por Joaquim Paulo de Andrade, com Grande Otelo e Paulo José no papel de Macunaíma.
Macunaíma e o Enigma do Herói às Avessas, palestra do professor José Miguel Wisnik para o programa Café Filosófico.

[aula 12/05] Panorama Cultural da Literatura Brasileira II

O Modernismo no Brasil

As vanguardas europeias; a Semana de Arte Moderna de 22; a militância literária de Oswald de Andrade (1890-1954): leitura do “Manifesto antropofágico” (1928) e de poemas de Pau-Brasil (1925): “Pero Vaz Caminha” [aqui em pdf] e “Canto de regresso à pátria” [aqui em pdf]

Para ver/ouvir
Revista Antropofagia n.1 [1928]
Três telas de Tarsila do Amaral (1886-1973): A negra (1923); Aboporu (1928); Os operários (1933)

Canto de regresso à pátria [Oswald de Andrade]

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo

Pero Vaz Caminha [Oswald de Andrade]

A DESCOBERTA

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra

 

OS SELVAGENS

Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados

 

PRIMEIRO CHÁ

Depois de dançarem
Diego Dias
Fez o salto real

 

AS MENINAS DA GARE

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha


Pau-Brasil
[1925]

[aulas 04 e 05/05] Panorama Cultural da Literatura Brasileira II

A literatura brasileira na virada do século XX

Aula 04/05 — O esgotamento dos estilos de época e o pré-modernismo; a posição do pré-modernismo da historiografia da literatura brasileira; o caso Augusto dos Anjos (1884-1912): poesia e podridão — leitura de “Versos íntimos”, “Psicologia de um vencido” e “O lupanar”. [os poemas em pdf aqui]

Leitura complementar — Paes, José Paulo. Augusto dos Anjos ou o evolucionismo às avessas.

Para ver/ouvir — “Versos íntimos” em cinco versões: (1) música (brega) de Gustavo Magno ; (2) música (metal) da Banda Sanguínea ; (3) música de Alexandre Leocádio, na voz de Krisley Motta ; (4) interpretação da astróloga Zora Yonara ; (5) interpretação do ator Carlos Eduardo Valente

 

Aula 05/05 — O romance de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922). Literatura, negritude e sociedade no início do século XX. Leitura de Triste fim de Policarpo Quaresma (1911): sátira social, República, política e nacionalismo.

O texto integral do romance pode ser acessado na página da Biblioteca Nacional digital, neste link.

Leitura complementar — Santiago, Silviano. Uma ferroada no peito do pé (Dupla leitura de Triste fim de Policarpo Quaresma).

Para ver/ouvir — Filme Policarpo Quaresma, herói do Brasil (1998). Direção de Paulo Thiago.

 

Versos íntimos [Augusto dos Anjos]

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!